[radiolivre] [Tecidosocial] Correio Tecido Social N. 154
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Brazil
Nº 154 - 19/08/2005
BASTA DE IMPUNIDADE PARA A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER
Está acontecendo nestas horas, em Natal, o julgamento do assassino de Roberta
Cláudia Bezerra Soares, um caso atroz de violência de gênero
Por Antonino Condorelli
Na madrugada de 27 de outubro de 2003, por volta das 3:30, a professora
universitária Roberta Cláudia Bezerra Soares, de 37 anos e grávida de 5 meses,
foi espancada violentamente até morrer pelo marido Joab Antônio da Silva, no
apartamento onde os dois moravam junto à filha Maria Clara, de um ano e meio de
idade, em um bairro residencial de Natal, capital do Estado do Rio Grande do
Norte, no Nordeste no Brasil. Depois do assassinato, a vítima foi atirada pela
janela do apartameto, no terceiro andar do prédio.
O marido da vítima, que era professora no campus da Universidade do Estado do
Rio Grande do Norte (UERN) na Zona Norte de Natal, alegou suicídio. Porém,
todos os laudos periciais (que mostram que a vítima sofreu pancadas em todo o
corpo, foi estrangulada e depois jogada pela janela) e os relatos das
testemunhas (principalmente a babá do casal, que sabia que o marido de Roberta
Cláudia batia frequentemente na mulher, que esta recebia ameaças de morte e
desconfiava que fossem do seu companheiro e que, na noite do assassinato, ouviu
gritos no apartamento) mostram de maneira inequívoca que se tratou de um brutal
homicídio.
Mais uma atrocidade contra uma mulher, vítima de ciúmes e a violência que
derivam da desigualdade de gênero, da percepção do corpo e a existência
femininos como "objeto de consumo e de posse" por parte do homem. O caso
comoveu a opinião pública e gerou uma grande onda de mobilização pela justiça,
liderada por movimentos de mulheres e de defesa dos Direitos Humanos como o
Fórum de Mulheres do Rio Grande do Norte, o Coletivo Leila Diniz, o Centro
Feminista 8 de Março de Mossoró (segunda cidade do Rio Grande do Norte, depois
de Natal, e lugar de origem de Roberta Cláudia) e o Centro de Direitos Humanos
e Memória Popular.
Mas o caso Roberta Cláudia é apenas a ponta de um iceberg ensangüentado. No
primeiro semestre de 2005, só no pequeno Estado do Rio Grande do Norte, 10
mulheres foram assassinadas pelos próprios companheiros. A última vítima, cuja
vida foi ceifada em julho, teve a "culpa" de colocar brilho no seu cabelo.
Hoje, quinta-feira 18 de agosto, desde as 8:00 da manhã está acontecendo na 2ª
Vara Criminal de Natal, no bairro de Lagoa Nova, o julgamento do assassino de
Roberta Cláudia, Joab Antônio da Silva, jornalista, que está solto há muito
tempo e se declara inocente. Desde muito cedo, a sala do processo estava lotada
e nem todo o mundo que tinha chegado para assistir ao julgamento pôde entrar.
Os movimentos norte-riograndenses que lutam contra a violência, a impunidade e
à barbárie contra a mulher estão maciçamente presentes, aguardando a sentença
com ansiedade. A Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, com sede em
Mossoró, enviou uma ampla delegação à capital potiguar para assistir ao
julgamento. O veredito do Júri Popular só será lido na madrugada.
Profundamente convencidos de que a impunidade dos assassinos, corolário do
machismo que justifica os crimes, é uma das principais causas da violência de
gênero, pedimos ao Poder Judiciário do Rio Grande do Norte e ao Júri do
processo contra o acusado do homicídio de Roberta Cláudia Bezerra Soares que
façam JUSTIÇA! Todas as provas indicam que não se trata de um pre-julgamento
gerado pela comoção: Roberta Cláudia foi assassinada a socos e pontapés e
jogada pela janela de um terceiro andar, e o responsável desta atrocidade tem
que pagar pelo seu crime. Só assim será possível dar um sinal claro e
inequívoco à sociedade: a impunidade de quem pratica violência contra a mulher
nunca mais vai ser tolerada.
Se isso não acontecer, se a impunidade triunfar mais uma vez, a Rede Estadual
de Direitos Humanos do Rio Grande do Norte está pronta a lançar uma campanha
através do Tecido Social para lotar as caixas de correio do juíz e das outras
autoridades responsáveis pelo julgamento manifestando repúdio e indignação e
exigindo justiça. Todos torcemos para que esta campanha não seja necessária.
Mais informações sobre o caso Roberta Cláudia:
http://www.geocities.com/robertaclaudia2003
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