[radiolivre] [Tecidosocial] Correio Tecido Social N. 147 - Lançamento da Rede Potiguara de Solidariedade Internacional
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- Date: Thu, 23 Jun 2005 02:19:17 +0200
Correo electrónico de la Red de Derechos Humanos de Rio Grande do Norte -
Nordeste de Brasil
Bollettino elettronico della Rete di Diritti Umani del Rio Grande do Norte -
Nord-Est del Brasile
Online Journal for the Human Rights Network of Rio Grande do Norte - Northeast
Brazil
Nº 147 - 23/06/2005
REDE POTIGUARA DE SOLIDARIEDADE INTERNACIONAL - LANÇAMENTO
Publicamos na íntegra o texto da conferência que Vera Duarte, Presidente da
Comissão Nacional para os Direitos Humanos e a Cidadania (CNDHC) de Cabo Verde,
dará quinta-feira, 23 de junho, em Florença (Itália), no evento de lançamento
da Rede Potiguara de Solidariedade Internacional - Grupo Italiano de Apoio à
Rede Estadual de Direitos Humanos do Rio Grande do Norte (REDH-RN), Nordeste do
Brasil.
Esta última é uma realidade de cooperação internacional profundamente
innovadora, que subverte a lógica tradicional das relações entre Primeiro e
Terceiro Mundo. Pela primeira vez, de fato, uma rede de entidades e
instituições de uma região periférica e extremamente pobre de um país do
Terceiro Mundo exporta suas experiências para um dos oito países mais ricos do
planeta e articula nele uma rede, apoiada em parceiros locais, que além da
procura de financiamentos para projetos de promoção e defesa dos Direitos
Humanos no Estado brasileiro do Rio Grande do Norte, será promotora ativa de
intercâmbios absolutamente horizontais de conhecimentos, recursos humanos e
intelectuais, idéias, produtos culturais, experiências educativas, informações
e até mesmo know how tecnológico e multimídia finalizado à promoção de
direitos. Um tipo de relação que rompe com o unilateralismo tradicional das
relações entre mundo rico e mundo pobre, onde os fluxos de recursos (não apenas
financeiros, mas humanos, materiais, intelectuais, etc.), de experiências, de
informações e de conhecimentos segue sempre a mesma direção: a do Norte para o
Sul.
A Rede Potiguara de Solidariedade Internacional é, portanto, o primeiro espaço
de diálogo e troca de experiências entre realidades de promoção e defesa dos
Direitos Humanos dum Estado do Brasil e da Itália baseado numa verdadeira
reciprocidade. Mas é também mais um espaço de articulação para projetos de
redes que derivam de elos orgânicos da REDH-RN com realidades de outros Estados
brasileiros, dos outros países de língua portuguesa e de nações da América
Latina: a Rede Inter-Estadual de Direitos Humanos Paraíba-Rio Grande do
Norte-Ceará, a Rede Lusófona de Direitos Humanos e a Rede de Operador@s de
Direitos Humanos da América Latina e o Caribe (R@DHALC). De fato, o espírito de
pluralismo e diálogo permanente dentro dum contexto de organicidade que
entranha estes três projetos de redes, sua visão "glocal" (ou seja, o fato de
agirem através de micro-ações locais, mas permeadas de princípios universais e
inseridas em sistemas globais de promoção e proteção dos direitos) e seu
carácter aberto são exatamente os traços principais da Rede Potiguara, que -
como elas - é um projeto que nasce para inter-conectar as experiências da
REDH-RN a realidades afins no resto do mundo.
A presença de Vera Duarte no evento de lançamento da Rede Potiguara é uma
confirmação disso e possui uma fortíssima carga simbólica, pois encarna e
fortalece o elo entre a REDH-RN e a CNDHC de Cabo Verde, embrião da Rede
Lusófona de Direitos Humanos, e o entre esta última e a nova realidade que está
sendo construída na Itália. Um laço triangular - o entre o Brasil, Cabo Verde e
a Itália - que tem profundas raízes históricas e simbólicas, como explica a
própria Presidente da CNDHC na sua intervenção reproduzida abaixo.
Nas suas articulações na Itália junto à REDH-RN, atualmente em missão naquele
país através do seu militante Antonino Condorelli, editor-chefe de Tecido
Social, Vera Duarte se reuniu na quarta-feira, 22 de junho, com representantes
da Assembléia Legislativa da Região Toscana, em Florença, e com o Secretário de
Cooperação daquela administração regional, Massimo Toschi.
O primeiro encontro traduziu-se no compromisso da Presidência da Assembléia
Legislativa toscana em fortalecer os vínculos de cooperação na área vinícola
entre a aquela região italiana e Cabo Verde, vinculando a produção de vinho à
promoção de direitos, e em procurar parcerias entre instituições locais da
Toscana e municípios cabo-verdianos.
O encontro com o Secretário de Cooperação da Toscana, Massimo Toschi, teve
repercussão também para a REDH-RN e se traduziu no compromisso concreto em
analisar a possibilidade de apoio a projetos de combate ao turismo sexual no
Brasil e em Cabo Verde, com ações de promoção de alternativas para as vítimas
deste fenômeno, a serem elaborados e propostos à Região Toscana pela CNDHC e a
REDH-RN em parceria, na perspectiva de implementação da Rede Lusófona, através
da Rede Potiguara.
O turismo sexual, sobretudo o com crianças e adolescentes, é um problema comum
que une o Nordeste do Brasil e Cabo Verde, situados na mesma rota dos vôos
charter da infâmia. No arquipélago africano, o fenômeno começou a se difundir
nos últimos anos, coincidindo com a transformação das ilhas de Sal e Boa Vista
em pólos de atração do turismo de massa. Tanto no Nordeste do Brasil como em
Cabo Verde, a grandíssima maioria dos investidores do setor turístico e dos
turistas estrangeiros é composta por italianos. De mesmo jeito que Fortaleza ou
Natal, já existem vôos diretos entre cidades italianas e a Ilha do Sal. Mais um
motivo para juntar as forças solidárias da sociedade potiguar, a cabo-verdiana
e a italiana para promover ações conjuntas, como Rede Lusófona e Rede
Potiguara, para combater esta aberrante forma de exploração.
A Rede Potiguara de Solidariedade Internacional será lançada na quinta-feira,
23 de junho, com uma coletiva de imprensa no histórico café literário de
Florença Giubbe Rosse, às 11:00, e um evento num círculo da associação ARCI
chamado R. Andreoni, em Via D'Orso n. 8, zona Coverciano, também em Florença,
às 17:00.
Além da de Vera Duarte reproduzida abaixo, o evento das 17:00 contará com
intervenções de Antonino Condorelli, representante da REDH-RN e editor-chefe de
Tecido Social; Carlo Moscardini, Vice-Presidente da Associação Adelante -
Agência para a Cooperação Descentralizada e principal articulador na Itália da
Rede Potiguara; e Giuseppe Samorì, nó da Rede Potiguara na cidade de Faenza, na
região da Emilia-Romagna.
O evento contará também com a animação cultural do rapper Marsu, nó da Rede
Potiguara em Sorrento, cidade da província de Nápoles no Sul da Itália, e a
leitura de poemas de Vera Duarte, de outro poeta cabo-verdiano residente em
Florença e dum poema do artista popular poriguar Crispiniano Neto. Enfim,
contará com a presença "virtual" de toda a equipe do Centro de Direitos Humanos
e Memória Popular (CDHMP) de Natal e da companhia potiguar de teatro livre de
rua La Trupe, que enviaram mensagens de saudação e de interação com os
voluntários da rede italiana irmã.
Mais informações sobre a Rede Potiguara de Solidariedade Internacional:
Tel. 0039 055 87 07 657 - Fax 0039 055 87 07 657
E-mail na Itália: italia.redesolidariedade@xxxxxxxxxxxx
E-mail no Brasil: brasil.redesolidariedade@xxxxxxxxxxxx
INTERVENÇÃO DE VERA DUARTE, PRESIDENTE DA CNDHC DE CABO VERDE
Os Direitos Humanos em Rede: Itália - Cabo Verde - Brasil
Por Vera Duarte*
1. A Importância dos Direitos Humanos
Permitam-me que comece esta minha intervenção por dizer-vos que é extremamente
motivador dialogar convosco sobre o tema dos direitos humanos. É que não
consigo despir-me das vestes de activista dos direitos humanos que nos últimos
anos venho envergando cada vez com maior frequência e isto quer exactamente
dizer que já tive oportunidade de reflectir um pouco sobre este assunto e desde
há muito tempo, mais precisamente há cerca de 10 anos num Ciclo de Debates
sobre Direitos Humanos, Cidadania e Democracia, que teve lugar em Cabo Verde,
tive a oportunidade de defender publicamente uma posição consolidada e que
ambiciono ver o mais amplamente compartilhada de que: "os direitos humanos são
um valor absoluto, bem como um valor universal".
De facto, os direitos humanos constituem um valor absoluto, sim, porque as
diferentes tensões que no seu seio, junto de concepções políticas, sociais e
culturais diferenciadas, tendem a resolver-se no sentido da indissociabilidade
dos diferentes direitos, apontando mesmo o futuro no sentido da sua
indiferenciação. Assim, as diferentes tensões assinaladas: direitos do
homem/direitos dos povos; direitos civis e políticos/direitos económicos,
sociais e culturais não passam de diversas vertentes de uma realidade
extremamente complexa.
Do mesmo modo, os direitos humanos são também um valor universal porque toda a
sua teorização parte da eminente igualdade natural e jurídica de todos os
homens e daí que todo o percurso da sua conceptualização se tenha feito no
sentido do universalismo, ou seja, direitos humanos iguais qualquer que seja o
indivíduo a que ela se aplique.
Defender neste fórum a universalidade e o valor absoluto dos direitos humanos,
realmente, constitui para mim uma grande satisfação. Imaginem os senhores, quão
é o meu espanto, ao constatar que tais ideias defendidas há cerca de 10 anos
atrás nos limites territoriais de Cabo Verde, cercado pela imensidão do mar que
não parece ter fim e hoje, estar aqui, compartilhando convosco essas mesmas
convicções e verificando que além-mar existe uns muitos outros que partilham da
mesma preocupação: a defesa e promoção dos Direitos Humanos, realmente, é a
prova de que quando se quer somos capazes de transpor barreiras e fazer
conseguir chegar uma mensagem de optimismo e respeito pelos Direitos Humanos em
qualquer lugar do mundo.
Essa "Solidariedade Inter-Continental", tomando o termo emprestado de Antonino
Condorelli, certamente só é possível porque já existe, actualmente, uma Rede de
Direitos Humanos que nos proporciona este encontro. Sem ela, indubitavelmente,
não poderíamos estar aqui dividindo três experiências diferentes e
compartilhando o mesmo ideal de concretização dos direitos humanos. E é uma
grande honra para mim fazer parte deste processo e protagonizar do lado
Africano os laços com o continente Americano e Europeu.
Mas se apenas hodiernamente é possível conversar e agir em diferentes pontos do
planeta quase que simultaneamente - vantagens que a tecnologia nos proporciona
e nos permite desenvolver tão auspiciosa rede - não é menos verdade que esses
laços desde há muito vêm sendo desenvolvidos e aprofundados.
2. Os Elos Culturais: Brasil-Itália-Cabo Verde
Como afirmou o Professor Dalmo de Abreu Dallari em conferência proferida em
Cabo Verde em 16 de Fevereiro de 2005, por ocasião do I Encontro Internacional
de Direitos Humanos, que também contou com a presença do Dr. Roberto de
Oliveira Monte do Centro de Direitos Humanos e Memória Popular, CDHMP, de
Natal, Cabo Verde e Brasil tem raízes culturais comuns.
Talvez os senhores saibam que Cabo Verde era inabitada quando os portugueses
chegaram às ilhas. Foi neste momento que se iniciou o processo de povoamento de
Cabo Verde, através de europeus, sobretudo portugueses, vindos da Europa
Ocidental e através dos africanos, sobretudo guineenses, vindos da costa
ocidental da África.[1] Portanto, Cabo Verde assim como o Brasil "mesclam
factores e características oriundos da África e da Europa."[2]
Nas ilhas, com um ecossistema completamente diferente dos seus locais de origem
e extremamente adverso, os europeus e africanos, foram se misturando e apoiando
uns sobre os outros para melhor resistir às adversidades. Foi neste quadro que
começou o processo de homogeneização. Por este motivo, quase que não existe
racismo em Cabo Verde. Embora a Conferência de Durban sobre o Racismo tenha
afirmado que existe racismo em todos os países, mas em Cabo Verde, é um racismo
de baixa intensidade.
Se os senhores me permitirem, contarei um episódio muito elucidativo sobre a
mestiçagem da sociedade cabo-verdiana que se passou com o mundialmente
conhecido escritor brasileiro Jorge Amado. Quando ele chegou no Mindelo, em São
Vicente, uma das ilhas de Cabo Verde, ele foi entrevistado por um jornalista e
estava muito comovido com lágrimas nos olhos. O jornalista perguntou-lhe porque
ele estava tão emocionado e ele respondeu lhe dizendo que em Cabo Vede ele viu
a verdadeira sociedade mestiça do futuro, a que ele se refere no livro "A Tenda
dos Milagres".
Assim, Cabo Verde é um país formado por pessoas de origens diferentes mas que
encontrou na mestiçagem o seu denominador comum. O despertar para este facto
deu-se apenas recentemente e pode-se dizer tem o seu marco na independência do
país em 1975 que também representa a independência e auto-determinação de um
povo. Mas, foi apenas em 1988, através da Lei Constitucional n.º 1/III/88, que
foram estabelecidas em Cabo Verde, as bases institucionais para o
desenvolvimento de uma democracia parlamentar multi-partidária e acabou
conferido grande importância à protecção e promoção dos direitos civis,
políticos, económicos, sociais e culturais fundamentais.
A partir de 1991, com a instituição do regime pluripartidário que consolidou a
democracia no país, a legislação cabo-verdiana desenvolveu-se exponencialmente
no que diz respeito ao reconhecimento dos direitos humanos fundamentais. Cabo
Verde mesmo sendo um pequeno país arquipelágico composto por 10 ilhas, de pouco
mais de 400.000 habitantes, possui uma Constituição, adoptada em 1992,
enaltecedora da cultura dos direitos humanos. Como a Constituição brasileira de
1988 e com certeza como a Constituição italiana, a Constituição da República de
Cabo Verde também "filia-se à linha humanista consagrada na Declaração
Universal dos Direitos Humanos, aprovada pela ONU em 1948, e reiterada, com a
garantia de eficácia jurídica, pelos Pactos de Direitos Humanos, o Pacto de
Direitos Civis e Políticos e o Pacto de Direitos Económicos, Sociais e
Culturais, aprovados pela Organização das Nações Unidas em 1966".[3]
(Constituição italiana)
Portanto, o respeito pelos Direitos Humanos, o reconhecimento de sua
inviolabilidade e inalienabilidade estão previstos na Lei Constitucional
cabo-verdiana e arreigados nos seus 293 dispositivos. Mais precisamente, a
Constituição cabo-verdiana cristaliza um leque vasto de direitos e deveres
fundamentais previstos desde o artigo 15.º até ao artigo 89.º.
Dessa forma, Cabo Verde, Brasil e Itália integram, conforme diz Cançado
Trindade, um número crescente de Constituições contemporâneas, que fazem
referência expressa "aos direitos consagrados nos tratados de direitos humanos,
incorporando-os ao elenco dos direitos garantidos no plano do direito
interno."[4] Assim, podemos dizer que tanto no Brasil como em Cabo Verde e na
Itália, o direito público interno em consonância com o direito internacional
"revelam uma alentadora identidade de propósito de protecção do ser humano, e
contribuem à cristalização do novo Direito dos Direitos Humanos."
Em termos de hierarquização legal, em Cabo Verde, a Lei Fundamental consagra a
sua supremacia sobre todas as leis e tratados internacionais, assim segundo o
nosso ordenamento jurídico tratados internacionais, independentemente da
matéria que regulem, tem um valor infraconstitucional, embora tenham,
concomitantemente valor supralegal. Entretanto, isso não implica dizer que
tratados internacionais de direitos humanos tenham um status inferior, ao
contrário, a Constituição de 1992 confere dignidade constitucional aos
instrumentos jurídicos internacionais de promoção e protecção dos direitos
humanos ratificados por Cabo Verde[5]. Dessa forma, em seu artigo 17.º,
expressamente prevê que as normas constitucionais e legais relativas aos
direitos fundamentais devem ser interpretadas e integradas em harmonia com a
Declaração Universal dos Direitos do Homem.
As constituições de Cabo Verde, Brasil e Itália seguem a linha moderna das leis
fundamentais que consagram os direitos humanos. Em todos estes casos podemos
observar que a lei fundamental consagra sem restrições um formidável conjunto
de direitos, liberdades e garantias.
***
As "relações" Brasil/Cabo Verde tiveram o seu início no século XVI com a
triangulação do tráfico de escravos, em que Cabo Verde funcionou como
plataforma giratória, abrigando temporariamente e ladinizando os escravos, que
de África eram comercializados nas Américas. Sendo certo que o modelo
societário criado pelos portugueses e Cabo Verde foi transposto para o Brasil.
É curioso aliás notar que segundo o historiador António Correia e Silva, Cabo
Verde esteve na mesa de negociações da independência do Brasil posto que seria
pretensão cabo-verdiana e brasileira a anexão, pretensão que foi categorica e
liminarmente rejeitada pelos portugueses. Segundo esse historiador "mesmo
falhado o plano, Cabo Verde brasílico será durante algum tempo uma
possibilidade de futuro".[6]
Estas relações viriam a ter um momento privilegiado já na primeira metade do
século XX quando os ecos da Semana de Arte Moderna de São Paulo, de Fevereiro
de 1922, se repercutiram em Cabo Verde através da influência que escritores e
poetas do modernismo brasileiro, sobretudo do realismo nordestino, tiveram no
mais importante movimento literário cabo-verdiano, o Movimento Claridoso.
Também cabo-verdianos houve que tiveram alguma notoriedade. no Brasil como o
pintor da Corte brasileira, Simplício de Sá.
Mais recentemente, o aumento das relações comerciais, sobretudo com o Ceará, o
incremento da formação de quadros cabo-verdianos no Brasil e o reforço da
cooperação nas mais variadas vertentes, tem permitido uma presença muito forte
do Brasil em Cabo Verde e tem aumentado a visibilidade de Cabo Verde no Brasil.
É nesta dinâmica de relacionamento que se inscreve o acto que estamos agora a
protagonizar e que tem o seu começo em 1999 quando uma missão de peritos das
Nações Unidas se deslocou a Cabo Verde para avaliar a situação do país em
matéria de direitos humanos, tendo produzido um relatório em que recomendou,
entre outras, a criação de um Comité Nacional para os Direitos Humanos e a
adopção de um Plano Nacional de Acção para os Direitos Humanos. O relator da
dita missão foi o consultor internacional Paulo Mesquita Neto, brasileiro
integrante do Núcleo de Estudos contra a Violência da Universidade de São
Paulo.
O mesmo Dr. Paulo Mesquita viria a ser o Consultor Internacional que apoiaria
Cabo Verde na elaboração do Plano Nacional de Acção para os Direitos Humanos e
a Cidadania, ora em vigor.
Igualmente, é bastante antigo o relacionamento de Cabo Verde com a Itália na
medida em que no momento da descoberta das ilhas um dos navegadores que dirigia
a missão foi o genovês António de Noli. Isto em 1460. Por isso ser-lhe-ia
atribuída a capitania de Santiago que ele conservou até a sua morte em 1466.[7]
Depois disso as relações Itália-Cabo Verde viriam a conhecer um momento muito
positivo nos anos de 1940 quando os italianos instalaram uma primeira pista de
aterragem para os aviões[8] cuja inauguração coube a um vôo pilotado por um
ilustre italiano.
Neste momento o principal investidor na área do turismo - um dos vectores
fundamentais de desenvolvimento de Cabo Verde - é a Itália sendo que o fluxo
maior de turistas que estas ilhas conhecem é precisamente de origem italiana.
Também cabe aqui realçar que, sendo Cabo Verde um país que teve na imigração
durante muito tempo a sua principal fonte de receitas, um dos destinos
prioritários da imigração cabo-verdiana, sobretudo a das mulheres, foi
precisamente a Itália.
Por aí se vê como se vêm tecendo a teia de relações entre Brasil e Cabo Verde
no âmbito dos direitos humanos e apraz-nos muito constatar que estamos neste
momento a dar os primeiros passos neste mesmo âmbito com a Itália.
3. Os Resultados da Recente Viagem ao Brasil
A par de todas essas particularidades históricas, culturais e sociais que nos
unem, verificamos também que essas relações não pararam no tempo e têm sido
vivificadas e renovadas a cada dia. Assim, para além de intercâmbios
comerciais, musicais, e de várias outras naturezas têm-se desenvolvido também o
intercâmbio em matéria de direitos humanos. A génese desse processo foi
desencadeada através de contactos com a Rede Estadual de Direitos Humanos do
Rio Grande do Norte, Brasil, por meio de seu projecto de comunicação intitulado
Tecido Social, da responsabilidade do nosso colega Antonino Condorelli. Assim,
por esta via tivemos a oportunidade de acompanhar a realização de importantes
trabalhos, projectos e informações diversas sobre a educação em Direitos
Humanos - um projecto bastante caro para nós já que neste instante está sendo
levado a cabo em Cabo Verde e que tem por objectivo principal a introdução da
disciplina de Direitos Humanos nos currículos escolares de modo abrangente
quanto ao seu alcance, ou seja, voltado para crianças de todas as idades e de
modo aprofundado quanto à matéria a ser ministrada concentrada na socialização
dos instrumentos jurídicos nacionais e internacionais existentes e na
divulgação dos direitos, garantias e liberdades constitucionalmente previstos a
disposição de todos.
Além disso, conhecemos também a Dhnet - Rede de Direitos Humanos e Cultura, que
reúne um importante e exaustivo banco de dados e informações em matéria de
direitos humanos possibilitando a utilização da tecnologia em favor da promoção
dos direitos humanos. Portanto, era imprescindível estabelecer este contacto
com a Rede Estadual de Direitos Humanos - RN para permitir, mais de perto, a
troca de experiências entre Brasil e Cabo Verde no âmbito do que está a ser
realizado e ainda pode ser feito nessa esfera. Esse contacto, foi efectivado
através do I Encontro Internacional de Direitos Humanos, na Cidade da Praia, em
Cabo Verde e, em recente viagem realizada por mim, na qualidade de Presidente
da CNDHC, encontros que foram extremamente enriquecedores para conhecer e
debater sobre as experiência localmente desenvolvidas.
Assim, a Rede de Direitos Humanos, em tão pouco tempo, tem possibilitado que o
elo entre Brasil e Cabo Verde produza bons frutos. A criação de uma rede de
países da CPLP, ainda que inicial, é um exemplo claro disso. Estamos
desenvolvendo uma experiência extremamente valiosa ao compartilhar os problemas
e ao pensar em conjunto soluções para ultrapassar eventuais dificuldades em
matéria de direitos humanos. Assim, de braços dados estamos, certamente,
contribuindo para o adensamento dos direitos humanos e da cidadania, objectivo
esse que isoladamente não seria possível atingir.
Actualmente, na sequência do processo de implementação da Rede Lusófona a
Comissão Nacional para os Direitos Humanos e a Cidadania tem dialogado
ininterruptamente com a REDH-RN, dentre outras coisas, no sentido de vir
estabelecer um plano de comunicação para a CNDHC. Mais estamos a promover uma
Conferência de Direitos Humanos dos Países Lusófonos e criar a Rede Cabo Verde
de Direitos Humanos on line, bem como outros acordos. Neste processo também
está sendo levado a cabo um protocolo de intenções com a Universidade de São
Paulo (USP) que poderá receber professores cabo-verdianos que queiram
frequentar um curso de pós-graduação em Direitos Humanos. Ressaltamos que este
é um projecto extremamente importante para a CNDHC uma vez que estamos na fase
de implementação da disciplina de direitos humanos nos currículos escolares,
conforme dito, sendo que preparar profissionais qualificados para leccionar
esta disciplina é um dos desafios a serem vencidos.
Por fim, vale destacar que os fluxos entre Brasil e Cabo Verde são nos dois
sentidos, não só cabo-verdianos têm saído para conhecer a experiência
brasileira. No próximo mês, acolheremos um estudante brasileiro que estará
trabalhando junto à CNDHC e assim pretende conhecer a nossa experiência em
matéria de direitos humanos também.
Diante de tantos avanços que o eixo Brasil-Cabo Verde conseguiu produzir num
espaço tão curto de tempo, as expectativas com a criação da rede italiana
também nos têm motivado grandemente e, certamente, contribuirá para alargar os
nossos horizontes nestas matérias.
4. As Expectativas com Relação à Implementação de uma rede que estreite um elo
entre Itália, Brasil e Cabo Verde
A África, como sabemos, é um continente extremamente heterogéneo, e várias
violações aos direitos humanos ocorrem de muitas formas e a todo o momento.
Desde genocídio, escravidão, desaparecimentos em massa e tortura, a denegação
do direito à liberdade de expressão e imprensa, são poucas as violações que não
possam ser encontradas de alguma forma no nosso continente. Embora todos estes
problemas tenham sua origem remota no passado trágico do continente que viu a
sua história sacudida por três dramas maiores - o colonialismo, a escravatura e
o tráfico negreiro - têm como causas recentes os regimes ditatoriais, os
conflitos armados e a corrupção endogeneizada. Podemos ainda citar entre as
causas/consequências de violações dos direitos humanos o apartheid, a
subalternização da mulher e o registo de diversos massacres dos quais
sobressaem pelos horrores, os perpetuados no Ruanda e no Burundi, em Angola, na
Serra Leoa e mais recentemente no Darfur, Sudão.
Isto para não falarmos de outras catástrofes que vêm ameaçando a sobrevivência
da humanidade como o flagelo da Sida e outras doenças mortais, o flagelo da
droga e do álcool e o abandalhamento moral e físico que lhes estão intrínsecos
e os vários conflitos e confrontos que sistematicamente, por diversas formas
assombram o mundo e particularmente o continente africano. Urge, portanto, pôr
fim a esses flagelos para que os povos e os países da África possam caminhar
decisivamente na via do progresso.
Mas, sabemos também que quer em África, quer na América Latina ou na Europa, os
seres humanos são iguais e possuem os mesmos medos, incertezas, preocupações e
ambições, assim, em qualquer lugar do mundo demandamos de igual modo o respeito
e não violação dos direitos humanos. Portanto, acredito que temos na luta pelos
direitos humanos o nosso lugar comum. É claro que existem algumas diferenças
que possibilitam identificar que algumas violações aos direitos humanos são
mais graves em uns lugares do que em outros, como o problema da SIDA e dos
conflitos internos em África, ou o narcotráfico na América Latina. Entretanto,
seja em maiores ou menores dimensões, são problemas que estão presentes em
qualquer lugar do mundo e cada vez mais não se circunscrevem ao domínio
reservado dos Estados, antes devem ser tratados como uma preocupação
internacional.
Portanto, é de extrema importância que estejamos engajados na luta pelos
direitos humanos lembrando que a sensibilização para os deveres de cada cidadão
constitui o nosso primeiro passo.
Assim, exactamente, porque problemas ligados aos direitos humanos não pertencem
a esse ou aquele Estado, mas são problemas de todos é que as expectativas com
relação à implementação de uma rede italiana que estreite o elo entre o
Continente Europeu, Americano e Africano, ou seja, Itália-Brasil-Cabo Verde
enche-nos de esperanças. Em conjunto, tornamo-nos mais fortes e é mais fácil
combater os problemas ligados aos direitos humanos.
É nesta linha que são importantes acções de sensibilização como as que aqui
estamos a realizar, ao pormos em contacto e em diálogo experiências vividas nos
países em desenvolvimento e nos países desenvolvidos, pois, por mais modestas
que sejam, todas elas contribuem para dar vida a esse partenariado que deve
existir, que deve ser global entre a África e os países desenvolvidos, mas que
obviamente se constrói, passo a passo, domínio a domínio e em que assume
particular relevância a temática dos direitos humanos.
Em termos concretos, esse intercâmbio possibilita-nos transpor as barreiras
territoriais e trabalhar em conjunto na análise das virtualidades e
deficiências das acções e actividades locais e, a partir daí, podemos empenhar
na busca de alternativas e meios para melhor alargar e efectivar os direitos
humanos na sociedade. Nesse sentido, através das trocas de experiência é
possível reflectir mais criticamente sobre as nossas próprias acções, sobre as
políticas implementadas e sobre as necessidades de articulação. A luta pelos
direitos humanos não é uma tarefa fácil, devemos estar conscientes dos
problemas, responsabilidades e grandes desafios que se colocam aos que lutam em
prol do gozo amplo e efectivo dos direitos humanos e, por isso, é fundamental
dialogarmos sobre o turismo ético, o abuso sexual de crianças, o tráfico de
mulheres, a violência doméstica, o direito das crianças e adolescentes e muitos
outros, para podermos suplantar as dificuldades de modo mais consciente.
E é assim que concluo esta minha explanação destacando o trabalho que estamos
desenvolvendo em Cabo Verde com o Brasil e agora, enriquecido pela ligação da
Rede Italiana, na tentativa de compartilhar as nossas experiências, lutando
para produzir soluções e fazer vincar e prosperar os Direitos Humanos,
absolutamente indessossiáveis do Desenvolvimento e da Democracia.
* Juíza Desembargadora, Presidente da Comissão Nacional para os Direitos
Humanos e a Cidadania (CNDHC) de Cabo Verde
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[1] Palestra DUARTE, Vera, In: I Encontro Internacional de Direitos Humanos, 16
de Fevereiro de 2005, Praia, Cabo Verde.
[2] DALLARI, Dalmo de Abreu. Educação para os Direitos Humanos (conferência).
In: I Encontro Internacional de Direitos Humanos, 16 de Fevereiro de 2005,
Praia, Cabo Verde.
[3] DALLARI, Dalmo de Abreu. Educação para os Direitos Humanos (conferência).
In: I Encontro Internacional de Direitos Humanos, 16 de Fevereiro de 2005,
Praia, Cabo Verde.
[4] CANÇADO TRINDADE, Antônio Augusto. Prefácio. In: PIOVESAN, Flávia. Direitos
Humanos e o Direito Constitucional Internacional. 2.ª ed. São Paulo: Max
Limonad, 1997, p. 18.
[5] Discurso de posse, p. 3.
[6] CORREIRA e SILVA, António. Combates pela história. Praia: Spleen, 2004.
[7] MASSA, Françoise et Jean-Michel. Dictionnaire Encyclopedique et Bilingue -
Cap-Vert, p. 191.
[8] Idem, p. 137.
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MENSAGENS DA REDH-RN AOS MEMBROS DA REDE POTIGUARA DE SOLIDARIEDADE
INTERNACIONAL
Saudação das equipes de CDHMP/REDH-RN/Dhnet
Companheiras e Companheiros,
É com imenso prazer que desde Natal, Estado do Rio Grande do Norte, região
Nordeste do Brasil e ponto mais extremo das Américas, relembro as figuras
míticas de Anita e Giuseppi Garibaldi.
Garibaldi, considerado herói de dois mundos, acaba alicerçando a triangulação
de nossa Rede Lusófona de Direitos Humanos, trazendo para esta também a nossa
Mama África, simbolizada nos ideais revolucionários de Amílcar Cabral, Titina
Silla, Patrice Lumumba, Nélson Mandela e Steve Biko.
Organicidade: eis a busca maior de nossa Rede, extraindo os exemplos e práxis
da Campanha De Pé no Chão Também se Aprende a Ler do nosso conterrâneo Djalma
Maranhão, de Paulo Freire que buscou educação popular e cultura para o povo
potiguar e nos ensinamentos de Antônio Gramsci, cuja figura do intelectual
orgânico aprendemos e queremos colocar em prática, bebendo na fonte de ideais
socialistas e libertários.
Saúdo com imenso alegria a todos e todas, nas figuras de nosso companheiro
Antonino Condorelli e da nossa parceira (na verdade, nossa cúmplice) Vera
Duarte, exemplos da organicidade que acabei de relatar.
Saibam que neste outro lado do mundo existem companheiros e companheiras que
comungam os mesmos ideiais de fraternidade e justiça social, que lutam contra a
opressão econômica, social e cultural e acreditam que outro mundo é possível
com doses maciças de cidadania, arte e cultura e memória histórica.
Nesse mundo em que tentam nos impor um pensamento único e opressor, a
solidariedade e a construção de elos de cidadania mundial é mais do que
necessária, por isso declaramos desde o mais íntimo de nosso ser que
A LUTA CONTINUA!!!!
Roberto de Oliveira Monte - Coordenador
Equipes do Centro de Direitos Humanos e Memória Popular (CDHMP) / Rede Estadual
de Direitos Humanos - RN (REDH-RN) / Dhnet - Rede Direitos Humanos e Cultura
Saudação e diálogo à distância da companhia de teatro livre de rua La Trupe com
os/as companheiros/as italianos/as
"Não há amor sob teto de prisão...
Ninguém ama sem tesão
Ninguém voa com os pés pregados
Colados, arrastando no chão
Ninguém ama de braços cruzados..."(*)
É com esse lema de que Ninguém Ama de Braços Cruzados que desenvolvemos nossa
arte na luta pelos Direitos Humanos no Nordeste do Brasil. Caminhada árdua que
já dura mais de vinte anos e que a cada dia consegue descruzar um braço na luta
incessante contra o egoísmo, o preconceito e o individualismo. Ninguém muda de
braços cruzados, e ninguém faz arte de braços cruzados. A arte é um instrumento
de transformação social, e é um instrumento que está diretamente ligado com o
nosso povo e compreendido em todos os aspectos (o teatro, a dança, a musica, as
artes visuais, o circo, o artesanato, o folclore...).
"Pode parecer antiquado.
Pode parecer tolice de poeta cansado,
Estafado, indignado,
Mas ninguém ama de braços cruzados..." (*)
É através da arte, aliada a luta por um mundo melhor, por um povo mais cidadão,
e por uma sociedade mais justa e igualitária que somos artistas e que trazemos
na nossa mala e bagagem, a palavra parceria.
"Ninguém luta isolado, ninguém faz revolução dentro do seu quarto, ninguém ama
de braços cruzados" (*)
Por isso a importância de uma parceria entre Brasil, Itália e Cabo-Verde.
América, Europa e África, formando uma corrente de união.
"O amor se afeiçoa de mãos,
De mãos que clamam por mãos
Do corpo... desarmado
Do coração relaxado, solto...
Solte-se soltando as armaduras
O amor nunca está de braços cruzados" (*)
Gostaríamos fazer uma brincadeira e de convidar os senhores e senhoras
presentes para ficarem de pé (se por algum a caso estiverem sentados) e nesse
momento, de comemoração, de confraternização, descruzar os braços, e dizer: "-
Eu não amo de braços cruzados". Agora olhe para a pessoa que está ao seu lado
pega na mão dela e diz: Nos não amamos de braços cruzados!. Pode parecer uma
brincadeira simples mais vocês acabaram de descruzar seus braços e abraçar a
nossa luta.
Um abraço de todos os que fazem parte da La Trupe... e que nunca mais cruzemos
nossos braços.
Filippo Rodrigo e Patrícia Caetano
Coordenadores da La Trupe e integrantes da REDH/RN.
(*) Poema de Ray Lima, Adaptação Filippo Rodrigo
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RAP E DIREITOS HUMANOS NO LANÇAMENTO DA REDE POTIGUARA
Testo di una delle canzoni che il rapper Marsu di Sorrento canterà all'evento
di lancio della Rete Potiguara di Solidarietà Internazionale, giovedì 23 giungo
a Firenze
Di Marsu
Sparo Rime \ al vetriolo
Perché \ se invece del petrolio
Ci fossero che so ? \ pomodori
Sarebbero di meno \ gli esportatori di valori
Cesserebbero \ le guerre per le terre
Che voi Chiamate \ missioni di pace, noi
Cazzate \ preventivamente preparate
E abilmente \ servite alla gente
Ma chi realmente \ è capace di pace
È evidente \ un conflitto permanente
Inflitto \ da chi cancella ogni diritto
E scambia le sue bombe \ per candide colombe
Se muoiono i nostri \ tutti piangono - rispetto
Se dici ve l'avevo detto \ sei politicamente incorretto
Perché il problema non si pone \ se muore qualche bambino
Ma se cominciano a pisciare \ dentro il tuo giardino
Se poi milioni di morti \non fanno notizia si inizia
a riflettere sulla mancanza \ dell'importanza
data alla vita umana \e sai non è una cosa strana
che il grido pace \ abbia una eco assai lontana
Bisogna stare attenti \ contestare i potenti
che in ristrette corti \ decidono le nostre sorti
decretano le morti \ anche senza un mandato
altrimenti la terra senza guerra \ sarà un ricordo del passato.
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