[radiolivre] [Prometheus] Prometheus - informe de Genebra 01
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- Date: Mon, 8 Dec 2003 22:40:21 -0200
1 - Genebra
Chegando em Milão eu já podia avistar as montanhas com ?neve eterna?. Entrei em
um turbo-hélice da Alitália e começamos a sobrevoar os Alpes. De repente as
montanhas se abrem e surge um mar de nuvens. O avião mergulha e depois de uma
pequena turbulência surge Genebra. Uma cidade que fica sem ver totalmente o sol
(exceto por pálidos raios atravessando as nuvens em algumas manhãs) por quase
seis meses (aqui o serviço de saúde já se acostumou a tratar de depressão nessa
época do ano).
Genebra é a terceira maior cidade da Suíça, a maior da parte francesa (existe
ainda a parte alemã, majoritária, e a italiana, minoritária), com cerca de 300
mil habitantes, capital do cantão de mesmo nome (com um total de 400 mil
moradores) e distante apenas 30 minutos da França.
Há exatos cinquenta anos a Suíça é governada por um coalizão de ?compromisso?
entre a direita e a esquerda. A primeira tem quatro e a segunda três dos sete
ministros que se revezam, por ordem de idade, no governo da Confederação
Helvetica. No Cantão de Genebra a proporção entre esquerda e direita se
inverte. Quando um dos sete morre ou resolve se aposentar, a força política a
qual ele pertence indica seu sucessor. E absolutamente tudo é levado à
plebiscito. Nas ruas sempre se pode ver uma faixa sobre o tema anterior ou
aquele que ainda será votado num futuro próximo. Mas, talvez pela excessiva
permanência do quadro político vigente, apenas 40% dos suíços costumam votar.
Aqui fica a sede da ONU e, por consequência, os escritórios centrais de muitos
de seus organismos, como, por exemplo, a União Internacional de
Telecomunicações (UIT), promotora desta Cúpula (em conjunto com a UNESCO). Aqui
também funciona a Organização Mundial do Comércio (OMC). Isso representa uma
significativa população de embaixadores e especialistas vindos de todos os
cantos do mundo. E muito, mas muito lobby.
Mas, são as regras pouco rígidas para emigração que explicam o fato de que aqui
vivem 185 etnias, que constituem mais da metade da população. A maior parte é
composta por africanos (muitos ilegais, alguns sobrevivendo do tráfico de
varejo da heroína, da cocaína e do ópio, feito nas ruas menos iluminadas
próximas a Gare de Cornavin), árabes, turcos, latino-americanos, chineses e
portugueses, expulsos de seus países pela pobreza e que vem buscar as ocupações
mais subalternas (mas que garantem, entre salários e todas as vantagens do
welfare state, no mínimo um apartamento com calefação, saúde e educação de boa
qualidade e gratuítos). Impossível andar de ônibus sem escutar pelo menos umas
quatro linguas diferentes.
Mas, se a sobrevivência esta garantida, a integração social e cultural não é
fácil e muitos vivem no interior de suas próprias colônias, alguns sem nem
conseguir falar o francês (o que significa que não conseguem ler um jornal,
ouvir o rádio ou ver TV).
A cidade é linda, cheia de casas monumentais, prédios com mais de 300 anos,
ruelas diminutas, pouco trânsito e um orgulho histórico por sua resistência
protestante diante dos reis católicos da França (monumentos em todos os cantos
nos lembram aqui dos Huguenotes, ali de Calvino...). A parte urbana se integra
suavemente com os campos ao seu redor, numa transição quase imperceptível.
Os serviços públicos são impressionantemente eficazes e se exemplificam no
ônibus que, marcado para passar no ponto às 19h47min, jamais passara às
19h48min ou às 19h46min.
A propósito, a temperatura ao longo do dia tem rondado os 2°C, mas parece menos
graças ao vento que sopra do lago que enfeita a cidade. É preciso sair com uma
blusa, um suéter e um blazer. De noite, deve-se acrescentar um sobretudo,
luvas, gorro e um cachecol. Uma ciroula ajuda.
2 - CRIS Meeting
A Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação (WSIS) começa apenas no dia 10
de dezembro e se encerra no dia 12. Hoje, porém, teve início a série de eventos
paralelos (são dezenas, organizados por empresas privadas, movimentos sociais,
UNESCO, UIT, entre outros), com o primeiro dos encontros convocados pela
Campanha Communications Rights in the Information Society (CRIS), que reúne
movimentos sociais e organizações não governamentais de todo o planeta e que se
realizou na sede do Conselho Mundial das Igrejas.
O problema é que um encontro que se propõe a democratizar a comunicação não tem
tradução. Se alguém fala em qualquer idioma que não seja o inglês, deve parar
de vez em quando para que outra pessoa verta ao inglês. Mas, quando se fala em
inglês, não há tradução. O infeliz que se vire para entender...
A reunião de tantas nacionalidades mostra as diferentes perspectivas,
especialmente entre a realidade e as demandas dos países da Europa e dos
Estados Unidos e do Terceiro Mundo.
Um saldo importante é a abertura para os debates que cercam a globalização. No
Brasil, um país-continente, ficamos muito atarefados com nossa própria
realidade e esquecemos que esta, muitas vezes, é influenciada por questões de
ordem transnacional. É pedagógico, portanto, perceber como diversos outros
países lidam com muito mais familiaridade com estes temas.
Mesmo assim, podemos perceber que os impasses de cada país guardam muita
semelhança entre si e que, de distintas formas, enfrentamos o mesmo dilema: o
cerceamento ao direito inalienável da comunicação e o crescimento do monopolio
privado da fala.
A reunião foi usada para que todos pudéssemos nos apresentar e fazer um pequeno
balanço da situação em cada país e das perspectivas em relação ao papel da CRIS
depois de Genebra.
A boa notícia, para nós brasileiros, é que a próxima grande reunião da CRIS
ocorrerá na cidade de Porto Alegre, em julho de 2004, durante o encontro da
IAMCR (International Association for Media and Communication Research -
www.humfak.auc.dk/iamcr).
No começo da noite participei de uma pequena reunião sobre ?comunicação
comunitária? (na sede da UIT) onde tratamos, principalmente, de como fazer
lobby para garantir que o documento oficial da WSIS faça menção a este
importante tema.
Ainda não encontrei ninguém do Brasil, mas espero que em breve possamos nos
reunir aqui (como, por exemplo, com os companheiros da RITS) para traçarmos as
estratégias em comum.
3 ? WSIS
A informação de bastidor que circula é que o documento final já estaria
praticamente pronto, mas não temos acesso ao seu conteúdo, reservado, apenas,
aos embaixadores de cada governo.
Mesmo assim, existem saldos positivos. Parece-me que quando a UIT convocou esta
cúpula ela nâo tinha em mente o vulto que o debate tomaria. Para o bem ou para
o mal, a sensação que temos é que o tema da comunicação entrou definitivamente
na agenda internacional. Cabe, agora, o esforço para mantermos e ampliarmos
este espaço. Pena, mas não uma surpresa, que, pela Internet, perceba que a WSIS
simplesmente nâo existe na pauta da imprensa brasileira.
Por fim, foi aprovado hoje, por unanimidade, o documento oficial do setor da
sociedade civil da WSIS, com um conteúdo bem avançado. Ao chegar ao Brasil me
comprometo em fazer uma tradução.
Gustavo Gindre.
PS: desculpem os eventuais erros de digitação neste teclado em francês (várias
teclas em outras posições) e com um corretor ortográfico que teima em sublinhar
de vermelho tudo o que eu escrevo.
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