[radiolivre] Por que fui demitida da Rádio Universidade FM?

AMIGOS DO RÁDIO
URGENTE

--------------------------------------------------------------------------------

Repórter das Coisas
por Paulo Briguet

Terça, 22.03.05

Teoria e prática da política
Por um momento - breve que seja - este blog deixa de ser crônico para ser 
jornalístico. 
Segue no "leia mais" uma entrevista de arrepiar com a professora Janete El 
Haouli, demitida do cargo de diretora da Rádio Universidade-FM (Londrina).
Minhas perguntas são simples:

1. Por que você deixou a diretoria da Rádio Universidade-FM?
2. Quais as perspectivas da emissora? Há o risco de que ela se torne um veículo 
chapa-branca, repetindo o que Requião fez com a TV Educativa?
3. O que os ouvintes da Rádio podem fazer para evitar que ela se torne um órgão 
de propaganda? 



As respostas são longas, mas interessantíssimas. Vale a pena ler. Um verdadeiro 
curso de terror político (sob o ponto de vista da vítima, não do algoz) - e uma 
lição de coragem. Bravo, Janete.

(PS: Os grifos são meus - PB) | leia mais» 

enviado por briguet às 10:21 | 4 comentários

(PS: Os grifos são meus - PB) 
1. Por que você deixou a diretoria da Rádio Universidade-FM?
Fui demitida porque quis participar efetivamente de uma discussão sobre a 
política de comunicação da UEL, a pedido da reitora Lygia Lumina Pupatto. 
Participei de várias reuniões e pensei que o grupo que estabeleceria os rumos e 
os princípios da política de comunicação de uma instituição universitária, 
estaria aberto, de fato, para a comunicação, para a reflexão, para o diálogo 
franco e para as divergências de idéias. E, sobretudo, evoluído o suficiente 
para a construção dos consensos necessários para a elaboração de uma política 
plural e democrática. Engano meu. A política de comunicação já estava pronta. 
Cabia ao grupo de trabalho simplesmente ratificar e transformar em lei e 
resoluções uma idéia que já estava pronta e definida. Não tenho vocação para 
ser marionete, por isso resisti, questionei, suscitei dúvidas. Mas como a 
decisão já estava tomada, eles não consideraram as minhas questões como uma 
forma de contribuição, mas como um estorvo, um problema, um incômodo. Logo, fui 
afastada das discussões sobre a política de comunicação.
Afinal, qual era a preciosa idéia que a Administração Superior não queria ver 
questionada? Explico. O ponto fundamental dessa "política de comunicação" da 
UEL é o controle da informação. O controle sobre a produção e a difusão de 
informações destinadas a comunidade externa e interna. E para viabilizar o 
controle da informação, a estratégia já estava definida: a centralização dos 
órgãos de comunicação da UEL. Controle e centralização do poder. Esses são os 
pilares da política de comunicação que a Administração Superior quer 
implementar. 
Afirmo essa idéia com segurança porque foram essas as propostas apresentadas 
pela reitora e aprovadas pelo Conselho Universitário, no dia 18 de fevereiro. 
Nesse histórico e fatídico dia foi criada a Coordenadoria de Comunicação Social 
(COM), o órgão centralizador que a partir de agora controla as duas maiores 
fontes de produção de informação da UEL: Assessoria de Relações Universitárias 
e Rádio Universidade FM. Foi criado também o Comitê de Comunicação Social que 
ainda vai elaborar a política de comunicação da UEL. Ironia das ironias. Fui 
demitida pela reitora por discordar de uma política de comunicação que nem 
mesmo existe, que ainda vai ser discutida em um Comitê. Mas deixa pra lá, vamos 
continuar porque a minha demissão é prova irrefutável de que essa política de 
comunicação já está pronta. Foi criado um órgão centralizador sob o pretexto de 
"otimizar" os trabalhos, de "integrar" os jornalistas da Instituição e "reunir" 
os órgãos de comunicação e submetê-los a uma política de comunicação. Uma 
política que será definida pelo Comitê que é composto em sua maioria por 
membros da COM.
Mas esse Comitê nem precisa se reunir. Já está definido na Missão Institucional 
da Coordenadoria de Comunicação Social (conforme documento aprovado pelo C.U.) 
o verdadeiro e o transparente sentido da política de comunicação. Sei que é 
chato, mas vamos ler o que diz a Lei:

II - Captar, organizar e distribuir informações de caráter jornalístico das 
diferentes instâncias da UEL no intuito de coordenar a sua difusão interna e 
externa, verificando sua compatibilidade com relação aos objetivos da 
instituição como um todo e à política de Comunicação Social da Universidade em 
particular.

Eis aí os pilares de que falei. 1) Centralização: Captar, organizar e 
distribuir informações no intuito de coordenar sua difusão. As informações 
devem ser pasteurizadas, homogeneizadas, padronizadas, saídas de uma mesma 
fôrma. O que é publicado no boletim Notícia deve ser adaptado para o Rádio e 
para a linguagem da Internet. Trata-se do estabelecimento de um padrão 
discursivo. Isso seria ótimo para uma empresa privada, mas não na Universidade, 
que tem no seu quadro de jornalistas especialistas e professores 
universitários. Isto é, pessoas capacitadas para elaborar suas próprias 
reflexões, visões e entendimentos sobre a vida social e acadêmica. Padronização 
aqui significa, antes de mais nada, engessamento, para não dizer termos mais 
brutos como processo de emburrecimento e mediocrização dos jornalistas da 
Instituição. 2) Controle: verificar a compatibilidade das informações 
jornalísticas em relação aos objetivos da instituição como um todo e à política 
de comunicação em particular. Meus caros internautas, me digam sinceramente, 
vocês acham que os jornalistas da Universidade poderiam em algum momento 
atacar, vilipendiar, denegrir a nobre missão da Universidade de educar, 
pesquisar e difundir o conhecimento? Vocês conseguem imaginar jornalistas da 
Universidade usando a palavra escrita ou falada contra o ensino, a pesquisa e a 
extensão? Uma campanha jornalística a favor, por exemplo, da estultice, da 
ignorância e do autoritarismo? E se num lapso de insanidade isso acontecesse, 
não seria responsabilidade da própria comunidade acadêmica ou mesmo do público 
externo tomar as atitudes legais contra tal jornalista? Mas o problema mais 
grave, meus caros internautas, não é esse. O problema fundamental está na 
sentença "política de comunicação em particular". Vou transcrever aqui, se 
segurem na cadeira para não caírem, o que é, de fato, essa tal política de 
comunicação da UEL. No projeto apresentado pela Reitora o texto é esse: "A 
constituição de uma boa política de comunicação institucional deve levar em 
conta dois aspectos principais: as metas da instituição como um todo e as 
estratégias necessárias para dar-lhe uma visibilidade institucional positiva." 
Sim, é isso mesmo! A Coordenadoria, o centro de controle verifica se as 
notícias são compatíveis ou não às estratégias de criação de uma visibilidade 
institucional positiva. Estamos no terreno do marketing e da propaganda. Isso é 
um outro departamento. Se a reitora Lygia Pupatto quer criar uma Coordenadoria 
de Marketing e Propaganda ela que o faça às claras, de forma transparente e 
responda por isso. Eu fui chamada para discutir a POLÍTICA DE COMUNICAÇÃO. 
Resisti a essa idéia de reduzir a política de comunicação da UNIVERSIDADE em um 
instrumento de propaganda. E por isso fui demitida.

2. Quais as perspectivas da emissora? Há o risco de que ela se torne um veículo 
chapa-branca, repetindo o que Requião fez com a TV Educativa?
- Não sei. Apenas devo dizer que recebi alguns telefonemas do diretor técnico 
da Rádio e TV Educativa de Curitiba, mantida pelo estado, solicitando que a 
Rádio Universidade-FM / UEL veiculasse o programa jornalístico produzido por 
aquela emissora, a pedido do governador Roberto Requião. Solicitei que nos 
encaminhasse tal solicitação por escrito. Até o momento em que estive na 
direção da Rádio Universidade, isso não ocorreu.

3. O que os ouvintes da Rádio podem fazer para evitar que ela se torne um órgão 
de propaganda?
- Acredito que os ouvintes / contribuintes poderiam e deveriam escutar a Rádio 
Universidade-FM com ouvidos pensantes e críticos. Escutar, pensar e refletir 
sobre o papel de uma rádio universitária pública assim como a sua função 
educativa, artística e social. Eu ainda acredito que podemos mobilizar e afetar 
pessoas por meio de uma programação musical, cultural e jornalística que 
proponha e admita ousadias, atitudes corajosas e ações concretas que 
possibilitem a escuta da pluralidade das vozes, das idéias e pensamentos. 
Estamos em uma universidade. Espaço da investigação científica e artística. 
Espaço da criação. Criação de espaços de inquietação, de reflexão, de diálogo, 
de debates, de crítica. Espaço para o exercício do respeito às diferenças e do 
confronto saudável de idéias.


Janete El Haouli
Professora Doutora do Departamento de Música e Teatro
Mestre em Ciências da Comunicação (1993) e Doutora em Artes/Rádio (2000), pela 
Universidade de São Paulo.
Coordenadora do Projeto de Extensão Rádio-Ação / Núcleo de Música Contemporânea
E-mail: janete@xxxxxxxxxxxxxxxx
Telefones: 3371 4037 / 4761
9912 3000


  ----- Original Message ----- 
  From: Arthur de Faria 
  To: janete@xxxxxxxxxxxxxxxx 
  Sent: Wednesday, March 23, 2005 10:43 AM
  Subject: RE: sem medo de acreditar e lutar


  PUTAQUEOPARIU!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


  Não tem nada que a gente possa fazer, amada?!?!?
  Putz, a coisa já é OSCA, e a gente ainda perde um dos nossos!!!!
  Beijobeijobeijo e indignação conjunta!
  Arturo

  Caros colegas e amigos da Rádio:

  Escrevo esta breve mensagem para comunicar que a reitora Lygia Pupatto me 
demitiu ontem, dia 17 de março, por discordância administrativa e ideológica em 
relação à atitude recentemente tomada pelo Conselho Universitário, no dia 18 de 
fevereiro.

  O CU decidiu, no último dia 18 de fevereiro, pela extinção da Rádio 
Universidade-FM como órgão de apoio da UEL. A Rádio passa, agora, a ser 
coordenada pela COM - Coordenadoria de Comunicação Social (antiga ARU) e sua 
estrutura administrativa e seus servidores foram cedidos à COM, sob a 
responsabilidade do professor e artista plástico Isaac Camargo.

  Minha (nossa) discordância - e consequente demissão - se pauta tem 3 
importantes justificativas:

  1- tal assunto não estava pautado nesta reunião do CU - dia 18 de fevereiro. 
  2- a proposta de extinção da Rádio como órgão de apoio  e o seu 
reenquadramento adminsitrativo não foi discutido pela comunidade universitária 
  3- a equipe e direção da Rádio não foram previamente comunicados e nem sequer 
consultados.

  A forte e veemente discordância por esta atitude foi considerada pela equipe 
e direção da Rádio, no mínimo, como desrespeitosa e nos levou a atitudes 
imtempestivas que culminaram com a minha demissão.

  Sendo assim, a partir de hoje já não estarei mais respondendo pela direção da 
Rádio.

  Gostaria de expressar o meu mais sincero agradecimento pelo apoio recebido 
por vocês, amigos, contribuintes, ouvintes.

  Com afeto, recebam o meu abraço 
  Janete 

  "Vou porque estou farto de acordar furioso de manhã e ir para a cama furioso 
de noite. (...) Estou até aqui de me arvorar em crítico e juiz de todo pobre 
diabo ulceroso que conheço. O que, em si, não me preocupa muito. Pelo menos, 
tenho a certeza de que critico desde o fundo das minhas entranhas e sei que, de 
um modo ou outro, pagarei caro por todas as opiniões que distribuí até hoje. 
(...) Mas há uma coisa... há uma influência que eu exerço sobre a moral da 
gente da cidade, que não suporto ficar presenciando por muito tempo. (...) Faço 
cada um ficar convencido de que não quer, realmente, fazer qualquer trabalho 
bom e decente mas que quer, simplesmente, fazer qualquer trabalho que os 
outros, todos os outros que ele conhece, pensem ser bom e decente... os 
críticos, os patrocinadores, o público, até a professora do filho. É isso que 
eu faço. A pior coisa que eu faço" (Salinger, Franny & Zooey)

  >From: "Janete El Haouli" janete@xxxxxxxxxxxxxxxx> 
  : Fri, 18 Mar 2005 06:39:57 -0300 

  >Caros colegas e amigos da Rádio: >

  >Escrevo esta breve mensagem para comunicar que a reitora Lygia Pupatto me 
demitiu ontem, dia 17 de março, por discordância administrativa e ideológica em 
relação à atitude recentemente tomada pelo Conselho Universitário, no dia 18 de 
fevereiro. > 

  >O CU decidiu, no último dia 18 de fevereiro, pela extinção da Rádio 
Universidade-FM como órgão de apoio da UEL. A Rádio passa, agora, a ser 
coordenada pela COM - Coordenadoria de Comunicação Social (antiga ARU) e sua 
estrutura administrativa e seus servidores foram cedidos à COM, sob a 
responsabilidade do professor e artista plástico Isaac Camargo. > 

  >Minha (nossa) discordância - e consequente demissão - se pauta tem 3 
importantes justificativas: > 

  >1- tal assunto não estava pautado nesta reunião do CU - dia 18 de fevereiro. 
  >2- a proposta de extinção da Rádio como órgão de apoio e o seu 
reenquadramento adminsitrativo não foi discutido pela comunidade universitária 
  >3- a equipe e direção da Rádio não foram previamente comunicados e nem 
sequer consultados. > 

  >A forte e veemente discordância por esta atitude foi considerada pela equipe 
e direção da Rádio, no mínimo, como desrespeitosa e nos levou a atitudes 
imtempestivas que culminaram com a minha demissão. > 

  >Sendo assim, a partir de hoje já não estarei mais respondendo pela direção 
da Rádio. > 

  >Gostaria de expressar o meu mais sincero agradecimento pelo apoio recebido 
por vocês, amigos, contribuintes, ouvintes. > 
  >Com afeto, recebam o meu abraço 
  >Janete > 
------------------------------------------------------------------------------

Other related posts: