[radiolivre] Re: Pirataria no ar, Bandeira Negra FM

"Toda a minha vida sempre vi tempos inquietos, tumultos extremos na
sociedade e imensas destruições; entrei nessas desordens. E tais
circunstâncias certamente bastaríam para impedir que o mais
transparente dos meus atos ou raciocínios se visse aprovado
universalmente, fosse onde fosse. Ademais, assim o creio, alguns terão
sido mal compreendidos."
Guy Debord
Panegírico

Como alguns sabem, eu considero o humor altamente subversivo e embora
não tenha pretendido ser hilário, gostaria de fugir da sisudez e da
frieza de alguns, colocando algumas questões que achava pertinente de
forma a provocar mais que raiva, indignação e virulência.
Ser sério as vezes é reacionario, é fazer parte de um espetáculo de
sobriedade que dá calafriiiiios..... A paz de espírito, o bom humor e
a sapiência do riso são essenciais.
Mas isso não quer dizer que eu estava de brincadeira!

1. Quando eu mandei o mail, fiz com a intenção de provocar
questionamento sobre a forma de uma determinada rádio frente ao que
nós estamos discutindo e fazendo nesses anos todos. A minha crítica
não foi direcionada a eles (bandeira negra) e sim a nós. Azar de quem
postou aquela entrevista achando que não seria questionada. E olha que
a Marina saiu logo para o contra ataque (sem sequer ser atacada).

2. Ela começa nos (quem seriamos este nós Marina, pode explicar para o
público?) chamando de vazios de ideologia e de proposta e, acho que
ironizando nos sugere o mercado. De ideologia e proposta, o mercado tá
cheio e parece que qq novidade ele está apto a receber, mastigar e
depois cuspir para o público em geral. E quem disse que o ideal era
ser como nós (de novo no plural) foi vc.

3. Meu "discurso" (isso é coisa de profissional) nunca pretendeu ser
libertário, acho que dentre as classificações que as pessoas adoram
por, a que eu mais me identifico é "flamenguista". "Se quer conhecer
os anarquistas..." diz vc, eu conheço alguns, mas a maioria e os que
eu mais gosto, não pessoalmente. Proudhon, Emma Goldman, Malatesta,
Kropotkin, Orwell, Bakunin eu não tive o prazer. Mas tive o desprazer
de conhecer outros tantos pseudo-anarco-anacrô(nicos).

4. Eu não pretendi ser o pêndulo propagador do ideal das RL, coloquei
umas questões, com um formato um pouco provocativo demais pra alguns.
E a pluralidade que pedes tem que ser também de linguagem, senão fica
chato pros nossos queridos leitores. Mas a questão da pluralidade virá
depois.

5. Concordo com o thiago e sou testemunhas das muitas propostas que
estão surgindo, se renovando e se adaptando sobre a questão dos meios
de comunicação, tecnologia e cultura. Algumas muito interessantes
outras menos, diversos tipos de abordagem etc. mas sei que cada vez
mais e com a velocidade que a questão merece muita gente está tentando
se virar e produzir, pensar, agir e trabalhar em relações a estas
questões. Alguns outros (dentre eles a Marina) preferem bater o pé (e
a mão, e a cabeça...)em questões fixas, presas a idéias que não se
renovaram e continuam a cativar os eufóricos do PSTU, assembléia de
Deus e anarco-anacro. Fora as mágoas e agressividade que eu realmente
não entendo.

6. Questionamentos ou são vazios ou são provocativos. 

7. "Escravo estóico, o estudante acredita que quanto mais numerosas
forem as cadeias de autoridade que o prendem, mais livre ele será"
Ésta crítica de Debord é emblemática para perceber o quanto não se
compreende a opressão. A posição "nada é livre na sociedade" afunda
cada vez mais o sujeito na escravidão. E não só a escravidão da ação,
mas do pensamento. Ele passa a encarar o mundo de forma unilateral e
se fecha em relação a dinâmica que a sociedade tem contra ele. A
crença (ou nóia) na opressão de tudo e de todos mina a criação de
novas formas de resistência e deixa as forças de oposição cada vez
mais parecidas com a situação. Sisuda, briguenta, cega, sozinha e
didática.

8. A questão do samba é legal. Ju e todos, apeser de ter a impressão
de que a Bandeira Negra realmente não toca samba durante as seis horas
semanais que estão no ar, foi mais uma brincadeira com o "jogo de
cintura" que foi mencionada pel@ anarco reporter. Trabalhei 4 meses na
zona leste de Sampa dando oficinas de rádio livre (durante as 4 horas
de oficina tínhamos uma rádio no ar - não tivemos problemas com os
opressores nem precisamos de "olheiros") e uma coisa que me
impressionou foi ver que realmente montar uma rádio lá não é fácil. Os
moleques tinham medo até de fazer rádio comunitária, imaginem uma que
se classifica como pirata! A ironia foi que acho difícil chamar e
fazer as pessoas compreenderem o quão importante é uma ferramenta
rádio e que se pode e deve-se fazê-la (sem concessão ou autorização)
chamando-a de pirata e com esquema de transmissão que mais parecem
plano da CIA. Ainda mais na Zona Leste de Sampa.

9. Eu não tive intenção de desmerecer nada, se eu ainda soubesse mais
da proposta. AH! eles falaram que a programação é cultural, então tá
valendo. Eu não disse pra eles pararem de transmitir, só fui o
primeiro a questionar a forma como eles utilizam o rádio. Sendo um
defensor das rádios livres, fiquei mais tranquilo em saber que eles
negam veementemente o termo, pois considero que a proposta deles não é
de rádio livre. Foram eles que disseram isso!

10. Não há patrulhamento aqui!!! Que mania de achar que opiniões são
mandados! As minhas questões, não patrulharam ninguém e sim foram
patrulhadas, e se este não é o lugar de botar as opiniões, realmente
não sei onde é.
 
11. Eu gostaria que, justo aquilo que propomos como experimentações -
musicais, de forma, de linguagem, de administração, de decisão etc.
sejam passadas para o plano do discurso. Sejamos criativos e nos
libertemos dos jargões, das retóricas e das frases feitas. Proposta
para rádio livre - todo o tipo de experimentação pode e deve ser feito
desde que não cancele a possibilidade do outro de responder e também
experimentar. Não consegui enxergar indícios disso na proposta da
Bandeira Negra.

Vão haver mais questões, espero, de todos, e a-d-o-r-e-i esse debate.
É bom qndo lista serve para proposições.
Rádio Livre é sobre isso. Sobre diversidade - com possibilidade de
colaboração de todos. Sobre estar aberta aos anseios individuais e
coletivos daqueles que procuram canal para se expressar. Sobre se
livrar dos velhos discursos e práticas e ser criativos para saber
domar os chifres do inimigo e, na hora certa, saber se impor frente a
ele. Sobre gozar na hora de fazer um programa e falar para todos que
vc gozou e fazê-los gozar também. Sobre improvisar em temas já dados.

Paulo José
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Lista de discussão do projeto http://www.radiolivre.org
Para ajuda sobre a lista, consulte http://www.radiolivre.org/node/483

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