[radiolivre] O movimento do livre-espírito
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- Date: Sat, 20 Aug 2005 12:16:40 -0300 (ART)
O movimento do livre-espírito <<
Foi reeditado em França o livro de Raoul Vaneigem, «Le Mouvement du
libre-esprit», editado pela «L?or des fous editeurs», 2005, que se encontrava
há muito tempo esgotado. Trata-se já de um clássico do livre-pensamento e de
leitura incontornável para todos os livres-pensadores
?A tese do livro é radical e cheia de consequências: «A Idade Média foi tão
cristã quanto os países do Leste foram comunistas», pelo que é preciso acabar
com a lenda de uma Idade Média mergulhada na fé cristã como sardinha em azeite.
Quem é que hoje recusa as imagens convencionais da vida medieval? Quem lê ou
faz ler, comenta e divulga as obras dos monges e das monjas hedonistas, desses
beguinos e beguinas, amaurianos e outros, adamitas da Boémia, alumbrados e
loistas? (?) colocado sob o signo da vida, do nascimento, das forças e das
energias que a manifestam, o pensamento de Vaneigem, deliberadamente ao lado da
resistência, entrega-se inteiramente à causa de Eros, de Baco, de Dionísio e de
um Prometeu que colocava a sua força ao serviço das causas libertárias.»?
escreve Michel Onfray na contracapa da nova edição do livro de Raoul Vaneigem
sobre os irmãos do livre espírito.
É para desfazer as ideias feitas e desmontar as imagens da historiografia
oficial sobre a Idade Média que um autor como Raoul Vaneigem se lançou à
pesquisa histórica, e a passou para o livro com o título «O movimento do
livre-espírito, generalidade e testemunhos sobre os afloramentos da vida à
superfície da Idade Média, do Renascimento e, incidentalmente, da nossa época».
A primeira edição tem data de 1986, mas já há muito que se encontrava esgotada,
pelo que se impunha uma reedição que foi entregue às edições «L?or des fous
editeurs».
A obra reeditada neste ano (2005) inclui um novo prefácio do autor, que
traduzimos a seguir para português na sua integralidade sob o título «Libertar
a terra das ilusões celestes e da sua tirania»
Nota de esclarecimento:
Irmãos do Livre Espírito são a designação dada a um vasto movimento herético
que surgiu e alastrou na Europa, sobretudo nos centros mais desenvolvidos
(norte de França, Países Baixos, Renânia ao longo das margens do Reno, Baviera,
etc) durante o século XIII e se manteve por cinco séculos seguintes.
Caracterizava-se por um grande misticismo em torno da liberdade individual,
considerada um meio indispensável para atingir a revelação. Há quem fale que a
sua gnose era uma espécie de anarquismo místico, tal era a sua afirmação
incondicional da liberdade subjectiva que negava qualquer constrangimento
exterior ao defenderem a comunidade de bens materiais e sexuais. Daí terem sido
considerados a única doutrina social verdadeiramente revolucionária que existiu
nessa época
>> Libertar a terra das ilusões celestes e da sua tirania ( por Raoul Vaneigem)
>> <<
Inaugurando há cerca de dez mil anos um sistema de exploração da natureza e
humana, a revolução agrária deu origem a uma civilização mercantil cuja
evolução e as formas são, apesar da sua grande diversidade, marcadas pela
persistência de alguns traços dominantes: a desigualdade social, a apropriação
privada, o culto do poder e do lucro, o trabalho e a separação que este
introduz entre as pulsões de vida e o espírito, que os pretende domar e
reprimir, ainda que se trate de elementos naturais.
A relação que, na economia recolectora, anterior à aparição da agricultura
intensiva, se estabeleceu por osmose entre a espécie humana e os reinos
mineral, vegetal e animal, cedeu o lugar à sua forma alienada, a religião, a
submissão da terra a um império celeste, a uma putrescência etérea repleta de
criaturas fantasmáticas chamadas Deus, Deusas, Espíritos.
Os laços que, de uma forma compreensiva e afectiva, se tinham entrelaçado entre
os elementos vivos, tornaram-se cadeias de uma tirania tutelar reinante, numa
tonitruante vacuidade, nas alturas beatas do além.
As religiões institucionais nasceram do medo e do ódio dirigidos à natureza.
Elas reflectem unanimemente aquela hostilidade gerada, há dez mil anos atrás,
pela pilhagem, para fins lucrativos, dos bens prodigalizados pela terra. Em
todo o lado em que os elementos naturais são celebrados em nome da fecundidade,
o seu culto testemunha rituais bárbaros, holocaustos, sacrifícios sanguinários,
crueldades tais que só miseráveis recalcando as suas pulsões de vida teriam
talento para imaginar e caucionar por via de mandamentos do espírito, um
instinto predador bestial que cabe à humanidade, não em transcender, mas em
superar.
O sentido humano consiste em controlar a proliferação caótica da vida, a
intervir de tal modo que a exuberância criativa se propague sem se destruir por
super-abundância, a impedir que o brilho vital não se inverta em radiação
mortal, da mesma maneira que uma necessidade de amor não satisfeito se
transforma em animosidade.
Acontece o mesmo aí: manter entre os animais selvagens um equilíbrio entre
presas e predadores; prevenir o empobrecimento das árvores em excesso e a
combustão das matas limpando as florestas; fazer nascer crianças que sejam
desejadas, amadas, estimadas, educadas no amor à vida, e não encorajar a
proliferação natalista condenando-os à pobreza, à doença, ao enfado, ao
trabalho, sofrimento e violência.
Todas as religiões, sem qualquer excepção, oprimem o corpo em nome do espírito,
menosprezam a terra em nome do céu, propagandeiam o ódio e a crueldade em nome
do amor. As ideologias fazem a mesma coisa, sob o pretexto de garantir a ordem
social e o bem público. Limitar-se a opor a laicidade do poder ao poder das
religiões é combater a mentira sagrada com as armas da mentira profana.
O clero assenta a sua hegemonia na base do caos social e da miséria. Eles
aproveitam-se desse formigueiro, em que a sobrevivência se faz à custa da
verdadeira vida, para arrogar-se o privilégio de fazer, segundo as directivas
pretensamente divinas, cortes na super-abundância dos povos. Eles realizam
suplícios, imolações, eliminando os excedentes e legalizando as hecatombes,
tudo em nome do Todo-Poderoso. Defendem a salvação da clã, da tribo, da
comunidade, da espécie pelo nivelamento da morte soberana. Abrem sobre uma
estrada mítica, cuja riqueza acompanha as carências de cá em baixo, a invisível
porta das suas certezas dogmáticas.
O individuo fica sacrificado a favor do gregário. Na prensa dos rituais de
endoutrinamento, a alegria de viver, comprimida, recalcada, esmagada, laminada,
rebenta e deixa transpirar, no seu cadáver, a fé . Uma crença, que defende a
salvação pelo preço de uma vida mutilada, mata. Como nos espantar?
O princípio da fatalidade, segundo o qual a cada instante a morte cerca o vivo,
ilustra o mecanismo de auto-regulação, que o caos, a proliferar, recorre
espontaneamente. Daí o obscurantismo, a inteligência obstruída, o credo quia
absurdum, que, ocultando a potência criativa do homem, revoga, há milénios, a
nossa única possibilidade de aceder à vida e de a propagar.
O pretendido regresso das religiões não traduz senão uma dessas regressões em
que o passado se manifesta por uma ressurgência factícia e passageira. Não há
arcaísmos unidos que não sejam espectaculares e paródicos. Arrasando os nossos
modos de crenças e de pensamentos tradicionais em benefício do cálculo a curto
prazo, o mercantilismo planetário fez das religiões e das ideologias políticas
simples elementos conjunturais para as suas necessidades. Recupera-as e
desembaraça-se delas conforme o mercado sente ou não necessidade.
O repugnante princípio do « tudo é permitido desde que traga mais lucro» inunda
até à náusea as mais diversas sociedades e tornou-se no niilismo a filosofia
dos negócios.
O consumismo devorou o cristianismo. Depois de Jesus, Jeová, Monn e o Dalai
Lama, não tardará que também Maomé entre no McDonalds como um enfeite oferecido
como um brinde. O culto do dinheiro acaba por perverter todos os outros.
O espírito religioso subsiste nas águas corrompidas de um passado pantanoso, as
instituições eclesiásticas não são mais que embalagens de um produto mercantil.
O ecumenismo de negócios mistura no mesmo saco o catolicismo vaticanesco, o
calvinismo de Wall Street, as máfias sob as bandeiras do sunismo, do chiísmo,
do wahhabismo, do sionismo, do hinduísmo, do sikhismo. O Deus da agiotagem e a
fé de não importa que deus servem de livre-trânsito para crenças obsoletas e
fantasmagorias à Jérôme Bosch, que contribuíram para uma extraordinários voga
de seitas, apesar deste facto ter caído no esquecimento rápido demais. Está na
lógica mercantil recuperar em seu proveito a perdição da alma que aquela
provoca. Nessa matéria, as modas equivalem-se.
O capital conduz, sob todos os climas que vêm degradando, uma verdadeira guerra
fria contra as populações. Ele parodia o antigo afrontamento que opôs o Leste
ao Oeste, o império moscovita ao americano. Hoje, do que se trata, é de uma
guerra de gangs e de tribos comanditados pelos mercados de armamento, do
petróleo, do narcotráfico, do agro-alimentar, das biotecnologias, da
informática, dos grupos financeiros, dos serviços parasitários, da pesca
intensiva, do comércio dos seres humanos, do tráfico de animais, da pilhagem
das florestas.
A única Internacional efectiva e eficaz é d?ora avante a dos mortes-vivos que
têm necessidade de fazer da terra um cemitério. Verdade seja dita que o
movimento operário tinha já abandonado o internacionalismo ais estalinistas do
antigo império soviético e aos seus sectários, os Mão, os Pol Pot, os
Ceausescu, os Castro e outros caudilhos. Como é que o reflexo da servidão
voluntária, conseguida com tanto zelo graças ao matraquear da informação e da
educação, não aumentaria a taxa de audiência junto dos meios promocionais do
fatalismo, sejam eles laicos ou religiosos? ( os que, nos tempos actuais,
conjuram a resignação dos muçulmanos, talvez fizessem bem em interrogar-se
sobra a sua própria).
Saídas de um sistema económico que as regurgitava até ao seu ponto mais alto,
as religiões, sempre irrisórias e ameaçantes, são bem a imagem do dinheiro
virtual, que, no meio de absurdos e abstractas cotações bolsistas, destrói a
estrutura da metalurgia, dos têxteis, da agricultura natural , da saúde, do
ensino , dos serviços públicos e a existência de milhões de pessoas.
Deste bolha especulativa financeira, a encher sem parar, e que os economistas
prevêem uma estouro, procede um espírito apocalíptico, menos marcado de medo
que de cinismo.
Reproduzindo o velho esquema do fim do mundo ? tão frequentemente associado,
outrora, a reivindicações igualitárias ? o programa de destruição planetária e
da vida terrestre identifica-se hoje, mais do que nunca, com o mundo dos
negócios. Como é que esta visão eminentemente religiosa não poderia prescindir
do espectáculo? Nada suscita maior fascínio trivial e mórbido que a encenação,
regida por um maniqueísmo de função variável, de bons e maus anjos
exterminadores, cujas milícias indistintas apoiam indiferentemente corruptores
de climas, envenenadores de alimentos, poluidores de todo o género, fazedores
de guerra e miséria, assassinos, autores de massacres, terroristas brandindo ou
não a bandeira de uma causa.
Uma única coisa não aparece no universal espectáculo e nas suas cenografias da
morte em directo: a simples evidência para milhões de seres humanos que a vida
existe e merece ser vivida.
As sociedades patriarcais menosprezaram a busca de felicidade terrestre. Agora
que os valores fundadores da sociedade gregária se dissolveram nas águas sujas
do cálculo egoísta, cada um encontra-se sozinho a procurar referências no seu
caminho, sozinho a errar na falta de tais referências com a angústia de se
perder, sozinho a fazer-se à sua própria custa, a descobrir os seus recursos
pessoais, a faculdade de criar, os seus verdadeiros desejos e a vontade de os
satisfazer.
É aqui, no próprio lugar em que, por via da crise planetária, se esboça uma
mutação, que o nascimento plausível de um mundo novo faz renascer do passado
figuras que resistiram ao obscurantismo, se rebelaram contra a opressão,
defenderam a emancipação do homem e da mulher, e testemunharam, para uma
insolente modernidade, uma radicalidade que só agora vai emergindo: Aleydis de
Cambrai, Marguerite Porete, Willem Cornelisz de Antuérpia, Heilwige
Bloemmardine de Bruxelas, Dolcino e Margarita de Novara, Thomas Scoto de
Lisboa, Francisca Hernández de Salamanca, Herman de Rijswijk, Éloi Pruystinck
de Antuérpia
Nota-se que, desde a Idade Média ao Renascimento, numerosas mulheres
combateram, com persistência, a opressão religiosa em nome do amor, da
liberdade de desejar, da generosidade da vida. A emancipação da mulher
acompanha o declínio do patriarcado cujo destino está ligado ao sistema de
exploração da natureza. É por isso que ela constitui um elemento motor da
consciência humana.
É preciso não esquecer que as mulheres sicilianas foram as primeiras a combater
a máfia, assim como a coragem das mulheres árabes, iranianas, afegãs face ao
despotismo exercido pelo homem sobre elas, que faz esquecer o quanto ele é
esmagado por uma opressão similar.
Porque professa o temor e o desprezo pela natureza, não há religião que não
tenha medo e menospreza a mulher. Mas depois de tanto tempo a alimentar esta
servidão, de que o macho prevalece na sua obsessão de ser enganado, a tradição
patriarcal vacila e bate em retirada. O receio do macho de ser destronado não é
alheio aos sobressaltos dos movimentos populistas laicos, que os integrismos
não são mais que a versão ainda mais arcaica.
Que o machismo em desespero descubra um reconfortante refúgio no coração das
citadelas do fundamentalismo, do nacionalismo, do tribalismo explica também
porque é que a vontade viril e democrática de erradicar os totalitarismos
religiosos e ideológicos acabe tão facilmente na mole indignação, em decisões
inoperantes e em homílias inconsequentes.
Toda a religião é fundamentalista desde que ela possua poder. Se, como diz
Holbach, «padres, predicantes, rabinos, etc invocam a infalibilidade todas as
vezes que são alvo de contradita, será interessante notar quanto eles se
mostram conciliantes e doces nos períodos em que não gozam a comodidade de
oprimir.
Abandonar o Estado ao Islão é termos logo os talibãs e a charia; tolerar o
totalitarismo papista e a Inquisição não tarda a surgir, tal como o crime de
blasfémia, a propaganda natalista. Reforçar o poder dos rabinos e não será
surpresa o renascimento do velho anátema da religião hebraica contra os goyim.
É altura de dizer claramente: que ninguém seja impedido de praticar uma
religião, de seguir uma crença, defender uma ideologia, mas que não queira
impô-la aos outros e, sobretudo, endoutrinar as crianças. Que todas as crenças
se exprimam livremente, até as mais aberrantes, estúpidas e ignóbeis na
condição expressa que, respeitando as opiniões, por mais singulares que sejam,
ninguém seja obrigado a segui-las contra a sua vontade.
Nada é sagrado. Cada qual tem o direito de criticar, de esconjurar,
ridicularizar todas as crenças, religiões, ideologias, sistemas e pensamentos.
Há também o direito de achincalhar os deuses, os Messias, os profetas, os
papas, os rabinos, os imãs, os bonzos, os pastores, os gurus, tanto como os
chefes de Estado, reis e caudilhos de todo o género.
Mas uma liberdade renega-se desde o momento em que ela não emana da vontade de
viver em pleno. O espírito religioso ressuscita sempre em que se perpetua o
sacrifício, a resignação, a culpabilidade, o ódio de si, o medo da alegria, o
pecado, a desnaturalização e a impotência do homem em tornar-se humano.
Os que tentam destruir a religião reprimindo não fizeram senão reforçá-la,
porque ela é por excelência o espírito da opressão renascendo das cinzas. Ela
alimenta-se de cadáveres e é-lhe indiferente que sejam vivos ou mortos os
mártires da sua fé ou as vítimas da sua intolerância. O vírus religioso
reaparecerá enquanto houver gente a lamentar-se, como de um título de nobreza
se tratasse, da sua pobreza, da sua doença, da sua debilidade, da sua
dependência, ou seja, de uma revolta condenada ao fracasso.
Deus e os seus avatares não são senão os fantasmas de um corpo mutilado. A
única garantia para pôr fim ao império celeste e à tirania das ideias mortas é
religar os laços entre as pulsões do corpo e a inteligência sensível que as
afina. É restabelecer a comunicação entre a consciência e a única radicalidade:
a aspiração do maior número à felicidade, à alegria, à criatividade.
Só há invenção de uma vida terrestre, devolvida à riqueza dos nossos desejos,
para consumar a superação da religião e da sua serva, a filosofia.
Raoul Vaneigem,
1 Janeiro de 2005
(texto que serve de prefácio à reedição de 2005 de «Le Mouvement du
libré-esprit», nas edições L?or des fous editeur)
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