[radiolivre] Manuel Castells: A Era da Intercomunicação
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- Date: Tue, 22 Aug 2006 18:13:44 -0300 (BRT)
A era da intercomunicação
Manuel Castells
http://diplo.uol.com.br/2006-08,a1379
Por que os blogs, o RSS e outras tecnologias podem
mudar os padrões de
informação com que a humanidade se acostumou há
séculos. O que isso
tem a ver com a crise da política tradicional e a
possibilidade de uma
alternativa [1]
***
A informação e a comunicação sempre foram vetores dos
poderes
dominantes, dos poderes alternativos, das resistências
e das mudanças
sociais. O poder de influência sobre o pensamento das
pessoas ? que é
exercido pela comunicação ? é uma ferramenta de
resultado incerto,
porém fundamental. É apenas através do exercício da
influência sobre o
pensamento dos povos que os poderes se constituem em
sociedades, e que
as sociedades evoluem e mudam.
A repressão física ou mental é certamente uma
importante dimensão do
poder dominante. No entanto, se um povo modifica
radicalmente seu modo
de ver as coisas, se ele passa a pensar de maneira
diferente e por si
mesmo, não há poder que possa se opor.
Torturar um corpo é bem menos eficaz do que moldar um
pensamento. Eis
o motivo pelo qual a comunicação é a pedra de toque do
poder. O
pensamento coletivo (que não é a soma dos pensamentos
individuais em
interação, mas sim um pensamento que absorve tudo e é
difundido por
toda a sociedade) se elabora na comunicação. É da
comunicação que vêm
as imagens, as informações, as opiniões e é por meio
desses mecanismos
de comunicação que a expriência é divulgada e
transmitida ao
coletivo/na coletividade.
Tudo isso se aplica fortemente em nossas sociedades,
no seio das quais
as redes de comunicação atravessam todos os níveis, do
global ao local
e do local ao global. Conseqüentemente, as relações
dentro do poder
dominante, elemento que constitui toda e qualquer
sociedade e
determina suas evoluções, são cada vez mais elaboradas
na esfera da
comunicação.
Mídia é poder, mas manipulação tem limites
Na sociedade contemporânea, a política depende
diretamente da mídia.
As agendas do sistema político e mesmo as decisões que
dele emanam são
feitos para a mídia, na busca de obter o apoio dos
cidadãos ou, pelo
menos, atenuar a hostilidade frente às decisões tomadas.
Isso não quer dizer que o poder se encontre
incondicionalmente nas
mãos da mídia, nem que o público tome posições em
função do que é
sugerido pela mídia. Pesquisas em comunicação
mostraram há muito tempo
até que ponto o público é ativo e não passivo.
Além disso, os meios de comunicação possuem,
internamente, sistemas
que controlam sua capacidade de influenciar o público,
pois antes de
qualquer coisa, eles são empresas submetidas aos
imperativos da
rentabilidade e precisam ter audiência ou estender sua
difusão. Em
geral, eles são diversificados, competitivos, e devem
ter tanta
credibilidade quanto seus concorrentes. Eles
freqüentemente se impõem
outras restrições, no que diz respeito à ética
profissional ou
jornalística (mediadores, conselhos de ética, etc.).
Um meio de
comunicação não é, portanto, algo fadado a distorcer
ou manipular
informações.
No entanto, precisamos focar nossa atenção nas
tendências. O
jornalismo militante, ideológico, a mídia engajada,
por exemplo, foi
furante muito tempo tido como uma mídia sem a
qualidade da
«objetividade» ? logo, sem consumidores. Os jornais
que se denominam
«órgãos de partido» praticamente desapareceram ou
enfretam graves
crises de distribuição. No entanto, a situação começa
a mudar: o
militantismo ou engajamento ideológico pode se tornar
um modelo
altamente rentável. Por exemplo, a Fox News, uma das
principais redes
de televisão dos Estados Unidos (filial da News Corp,
que pertence a
Rupert Murdoch), conquistou uma grande parte da
audiência conservadora
norte-americana ao defender, sem a menor preocupação
com a
objetividade, as teses dos neoconservadores favoráveis
à invasão do
Iraque, em 2003.
A segunda tendência que pode ser observada atualmente
está na perda da
autonomia por parte dos jornalistas profissionais com
relação aos seus
empregadores. Nesse âmbito joga-se boa parte do
complexo jogo das
manipulações midiáticas.
Um estudo recente procuro explicar que, em meados de
2004, 40% dos
norte-americanos [2] ainda acreditava que o Sadam
Hussein e a Al
Quaeda trabalhavam lado a lado e que Saddam possuía
armas de
destruição em massa no Iraque. Isso um ano depois de o
contrário ter
sido provado. Esse estudo enfatiza as ligações entre a
máquina da
propaganda do governo Bush e as produções do sistema
midiático.
Quando a omissão é a arma decisiva
No entanto, isso tudo é apenas a ponta do iceberg,
pois a maior
influência que a mídia exerce sobre a politica não é
proveniente do
que é publicado, mas do que não o é: de tudo o que
permanece oculto,
que passa desapercebido. A atividade midiática repousa
sobre uma
dicotomia: algo existe no pensamento do público se
está presente na
mídia. O seu poder fundamental reside, portanto, na
sua capacidade de
ocultar, de mascarar, de omitir.
A necessidade de algo ter de existir na mídia para
existir
politicamente induz uma relação orgânica à linguagem
midiática,
encontrada tanto na televisão quanto no rádio, na
mídia impressa ou na
internet. Os meios de comunicação em massa fazem uso
de um jargão
específico que não chega a ser uma dialeto próprio,
mas algo semelhante.
A mensagem midática mais simples e também a mais
poderosa é a imagem.
E o rosto é a mensagem mais simples que a imagem pode
transmitir.
Sendo assim, existe uma ligação orgânica entre a
midiatização da
política, a personalização da mídia e a personalização
da política. A
partir do momento em que se passa a cultivar uma vida
política baseada
em querelas pessoais e de imagem ou em manipulações
midiáticas, os
programas de governo perdem sua importância, pois
niguém se refere a
eles e os cidadãos não lhes dão mais importância (com
toda a razão).
O triunfo da «personalização» da política reside no
fato de que a
forma mais convincente de combater uma ideologia passa
a ser o ataque
contra a pessoa que encarna uma mensagem. A difamação
e os boatos
tornam-se uma arte dominante na política: uma mensagem
negativa é
cinco vezes mais eficaz do que uma mensagem positiva.
Todos os
partidos utilizam essa estratégia: eles manipulam e
até mesmo fabricam
informações. E não é a mídia quem cuida disso. Esse
trabalho cabe aos
intermediários, às empresas especializadas.
O resultado é uma ligação direta entre a
«midiatização» da política,
sua personalização e a difamação ou a prática do
escândalo político,
cuja banalização acarretou, nos últimos quinze anos,
assassinatos de
pessoas eleitas, crises de governo e até mesmo de
regime político.
Isso nos leva à atual e profunda crise da legitimidade
política em
escala mundial, uma vez que há uma ligação forte e
evidente, mesmo não
sendo exclusiva, entre a prática do escândalo, a
midiatização
exacerbada da cena pública e a falta de confiança por
parte dos
cidadãos no sistema. Essa desconfinça pode ser
ilustrada por uma
pesquisa feita pelos serviços da Organização das
Nações Unidas (ONU)
segundo a qual dois terços dos habitantes do planeta
afirmam não se
sentir representados pelos seus governantes.
Intercomunicação e crise de legitimidade política
Trata-se, então, de uma crise de legitimidade. Mas
embora o mundo
afirme não ter mais confiança nos governos, nos
dirigentes políticos e
nos partidos, a maioria da população ainda insiste em
acreditar que
pode influenciar aqueles que a representam. Ela também
crê que pode
agir no mundo através da sua força de vontade e
utilizando seus
próprios meios. Talvez essa maioria esteja começando a
introduzir, na
comunicação, os avanços extraordinários do que eu
chamo de Mass Self
Communication (a intercomunicação individual).
Técnicamente, essa Mass Self Communication está
presente na internet e
também no desenvolvimento dos telefones celulares.
Estima-se que haja
atualmente mais de um bilhão de usuários de internet e
cerca de dois
bilhões de linhas de telefone celular. Dois terços da
população do
planeta podem se comunicar graças aos telefones
celulares, inclusive
em lugares onde não há energia elétrica nem linhas de
telefone fixo.
Em pouco tempo, houve uma explosão de novas formas de
comunicação. As
pessoas desenvolveram seus próprios sistemas: o SMS,
os blogs, o
skype... O Peer-to-Peer ou P2P [3] torna possível a
transferência de
qualquer dado digitalizado. Em maio de 2006, havia 37
milhões de blogs
(em janeiro de 2006, havia 26 milhões). Em média, um
blog é criado por
segundo no mundo, o que significa 30 milhões por
ano...55% dos
blogueiros continuam a alimentar seus blogs até 3
meses depois deles
terem sido abertos. A quantidade de blogueiros é 60
vezes maior do que
era há seis anos. E ele dobra de seis em seis meses...
Como, no início, a língua inglesa era o idioma
dominante na internet,
atualmente, mais de um-terço dos sites da web são em
inglês. O chinês
vem em seguida, depois o japonês, o espanhol, o russo,
o francês, o
português e o coreano... O que realmente importa não é
tanto a
existência de todos esses blogs, mas a ligação que há
entre eles, e o
que eles condensam e difundem com a totalidade de
interfaces
comunicacionais (esta interligação é viabilizada pela
tecnologia RSS
[4]).
A Mass Self Communication constitui certamente uma
nova forma de
comunicação em massa ? porém, produzida, recebida e
experienciada
individualmente. Ela foi recuperada pelos movimentos
sociais de todo o
mundo, mas eles não são os únicos a utilizar essa nova
ferramenta de
mobilização e organização. A mídia tradicional tenta
acompanhar esse
movimento e, fazendo uso de seu poder comercial e
midiático passou a
se envolver com o maior número possível de blogs.
Falta pouco para
que, através da Mass Self Communication, os movimentos
sociais e os
indivíduos em rebelião crítica comecem a agir sobre a
grande mídia, a
controlar as informações, a desmentí-las e até mesmo a
produzi-las.
Reaberta a batalha mais antiga da História
O movimento altermundialista contra o capitalismo
global, com toda a
sua diversidade, utiliza há muito tempo a internet e
todos os recursos
da Mass Self Communication ? não só como ferramenta de
organização,
mas também como um espaço para debates e intervenções.
Também foi
desenvolvida por esse mesmo meio uma capacidade de
exercer influência
sobre a mídia dominante, passando pela Indymedia ou
uma série de
outras redes alternativas e associativas.
A constituição de redes de comunicação autônomas chega
também aos
meios de comunicação mais tradicionais. As televisões
de rua e as
rádios alternativas ? como a TV Orfeo em Bolonha, a
Zaléa TV em Paris,
a Occupen las Ondas em Barcelona, a TV Piqueteros em
Buenos Aires ? e
uma enorme quantidade de mídias alternativas, ligadas
em rede, formam
um sistema de informação verdadeiramente novo.
Mesmo o ex-presidente dos Estados Unidos, Albert Gore,
aderiu a essa
tendência, criando sua própria rede de televisão, na
qual atualmente
cerca de 40% do conteúdo é alimentado pelos
telespectadores. As
campanhas presidenciais também se renderam à
influência desse novo
meio de comunicação. Por exemplo, em 2003-2004, a
candidatura de
Howard Dean não teria decolado se não fosse a sua
capacidade de
mobilização por meio da internet [5].
Em segundo lugar está a «mobilização política
instantânea», via
telefone celular, que aparece há dois anos como um
fenômeno decisivo
[6]. Essa «onda» mobilizadora, apoiada por redes de
comunicação entre
telefones celulares obteve efeitos impressionantes na
Coréia do Sul,
nas Filipinas, na Ucrânia, na Tailândia, no Nepal, no
Equador, na
França... Pode obter um efeito imediato, como em abril
passado na
Tailândia, com a destituição do primeiro-ministro
Thaksin Shinawatra
pelo rei Bhumibol Adulyadej. Ou na Espanha, com a
derrota, nas
eleições legislativas em março de 2004, do Partido
Popular de José
Maria Aznar. A suspeita de que as autoridades
estivessem manipulando
informações, com o intuito de atribuir ao ETA a culpa
pelos atentados
em Madri, fez com que uma infinidade de mensagens
circulasse pelos
telefones celulares. Isso resultou na organização de
uma enorme
manifestação, em um dia no qual, teoricamente, devido
ao choque e ao
luto, seria impossível falar sobre política.
Isso não quer dizer que tenhamos de um lado a mídia
aliada ao poder, e
de outro, as Mass Self Media, associadas aos
movimentos sociais. Ao
contrário: cada uma opera sobre uma dupla plataforma
tecnológica. Mas
a existência e o desenvolvimento das redes de Mass
Self Communication
oferecem à sociedade maior capacidade de controle e
intervenção, além
de maior organização política àqueles que não fazem
parte do sistema
tradicional.
Neste momento em que a democracia formal e tradicional
está
particularmente em crise, em que os cidadãos não
acreditam mais em
suas instituições democráticas, o que percebemos
diante da explosão
das Mass Self Communications assemelha-se à
reconstrução de novas
formas políticas, mas ainda não é possível dizer no
que elas resultarão.
No entanto, de uma coisa podemos ter certeza: a sorte
da batalha será
jogada no terreno da comunicação, e jogará papel a
nova diversidade
dos meios tecnológicos. Sem dúvida, essa batalha é a
mais antiga de
toda a história da humanidade. Desde sempre, ela visa
à liberação de
nosso pensamento.
Tradução: Márcia Macedo marcinhamacedo@xxxxxxxxx
[1] O presente texto, relido e corrigido pelo autor,
foi retirado de
sua intervenção no Seminário ?Les médias entre les
citoyens et le
pouvoir? («A mídia entre os cidadãos e o poder»),
organizado pelo
Fórum Mundial da Política e a província de Veneza em
San Servolo
(Itália), em 23 e 24 de junho de 2006
[2] ?De acordo com uma pesquisa realizada pela
Universidade de
Maryland em outubro de 2003, 60% dos norte-americanos
? e 80% dos que
assistiam a Fox News ? acreditavam em pelo menos uma
dessas
inverdades: 1. Foram encontradas armas de destruição
em massa no
Iraque; 2. Existem provas de que haja uma aliança
entre o Iraque e a
Al-Qaeda; 3. A opinião pública mundial apóia a
intervenção militar
norte-americana no Iraque.? Ler, de Eric Klinenberg,
?A contestação da
ordem midiática ?, Le Monde Diplomatique-Brasil, abril
de 2004. [Nota
da Redação].
[3] P2P designa um modelo de rede de informática onde
os elementos (ou
nós) não têm um papel exclusivo de cliente ou
servidor. Funcionam das
duas maneiras, sendo ora cliente ora servidor dos
demais nós dessa
rede, contrariamente aos sistemas do tipo
?cliente-servidor?, no
sentido comum do termo. Cf.
http://pt.wikipedia.org/wiki/P2P [Nota da
Redação].
[4] Um fluxo RSS ou uma fonte RSS (RSS feed, em
inglês), que é uma
sigla para Really Simple Syndication (Gerenciamento
Realmente
Simples), ou para Rich Site Summary (Sumário de um
site atualizado), é
um formato de gerenciamento de conteúdo web. Esse
sistema possibilita
que os sites de informação ou blogs distribuam notícias
automaticamente, e que os internautas tenham acesso às
atualizações de
suas fontes preferidas sem a necessidade de se visitar
o website. Cf.
http://pt.wikipedia.org/wiki/RSS [Nota da Redação].
[5] Tido como favorito na corrida pela candidatura à
presidência pelo
partido democrata em 2004, Dean foi depois derrotado
por John Kerry ?
por sua vez, batido, nas eleições, por George Bush.
[Nota da Redação].
[6] Ver Manuel Castells, Jack Linchuan Qui, Mireia
Fernández Ardevol e
Araba Sey, Mobile Communication and Society, A Global
Perspective, MIT
Press, Boston, 2006, 392 páginas.
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Lista de discussão do projeto http://www.radiolivre.org
Para ajuda sobre a lista, consulte http://www.radiolivre.org/node/483
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