[radiolivre] MENTIRAS DAS INTERFERÊNCIAS

INTERFERÊNCIAS - A quem interessa a mentira?
* Chico Lobo
(autorizo repassar a quem quer que seja)

Os donos das grandes emissoras comerciais dizem através de milionárias 
campanhas na grande imprensa que as Rádios Comunitárias (as quais eles chamam 
indevidamente de "piratas") estariam "interferindo" nos sistemas de comunicação 
e navegação das aeronaves, bem como nos rádios de ambulâncias (se é que elas 
ainda usam rádio depois do advento do Celular)


Não sou o dono da verdade, mas nesses 20 anos de pesquisa acadêmica e prática, 
cheguei ás seguintes conclusões: 


O que mais vi foram mentiras deslavadas difundidas amplamente pelos 
radiodifusores comerciais para conter a DEMOCRATIZAÇÃO DA COMUNICAÇÃO. Esses 
empresários querem manter um monopólio que não tem mais lugar no mundo moderno. 
Para tanto se usam da ignorância popular e do poderio de "convencimento" de 
seus poderosíssimos meios de comunicação para inseminar essa mentira e esse 
terror na população,  na tentativa de desprestigiar as rádios comunitárias 
imputando lhes culpas que tecnicamente nunca foram comprovadas.


É muito estranho que pequenas emissoras que funcionam com baixa potência (no 
máximo 50 Watts) venham a causar esse tipo de desarranjo nos aviões de carreira.


Jamais conseguiríamos imaginar que grandes empresas aeronáuticas como a 
"Boeing" ou a "Folcker" que tem a responsabilidade de produzir veículos aéreos 
que percorrem os céus de todo o mundo, fossem tão ingênuas ou irresponsáveis em 
deixar sair de seus angares aeronaves com tamanha vulnerabilidade em seus 
sistemas de navegação.


Sabemos que nenhum tipo de radiofreqüência pode adentrar na fuselagem de uma 
aeronave, pois a engenharia aeronáutica prevê nos projetos qualquer possível 
interferência, dado o fato dos aviões percorrerem os céus de todo o planeta 
sobre as mais diferentes práticas de radiodifusão, ainda mais, transportando 
cidadãos da mais alta relevância.


Todo avião é testado nos angares de fabricação antes mesmo da sua primeira 
decolagem e posteriormente nas sistemáticas manutenções de rotina.


Quem conhece um pouco sobre aeronáutica e comunicação, sabe muito bem que a 
fuselagem de um avião não permite a entrada, nem a saída de qualquer gama de 
radiofreqüência, além é claro do que permite sua antena, que por medida de 
segurança possui todo o tipo de filtragem que impede qualquer interferência.


É claro que dentro de um avião não é conveniente utilizar nenhum tipo de 
equipamento que possa gerar radio frequencia, como por exemplo telefones 
celulares, video-games, Walk-mans, pois estes sim, já estariam dentro do avião 
e por muito raro acaso poderiam ser até indevidamente responsabilizado por 
alguma improvável interferência. Nesse caso, fica valendo o bom senso, mesmo 
porque, TODO PASSAGEIRO É REFÉM DA EMPRESA AÉREA E DA AERONÁUTICA desde o 
momento do embarque até sair do aeroporto, por mera questão de segurança das 
instituições (e este nem sabe disso), mas nunca por questões de interferências.


Se por ventura essas aeronaves fossem de fato vulneráveis às interferências 
externas, até mesmo os serviços de radio-comunicação das empresas aéreas nos 
aeroportos poderiam estar na lista de suspeitos.


Só prá se ter uma idéia, segundo a INFRAERO, existem mais de 350 transmissores 
de mão (HT) e 50 transmissores bases (com 50 watts cada) no aeroporto de 
Cumbica em pleno funcionamento nas mãos dos funcionários das empresas aéreas, 
totalizando mais de 4.150 watts de possibilidade de irradiação, isso, dentro do 
próprio aeroporto. E nada interferem. 


O mundo inteiro, onde percorrem essas aeronaves, é pulverizado de todo tipo de 
emissoras (grandes, pequenas, legais ou não), mas só aqui no Brasil estariam 
provocando essas supostas "interferências" como alegam os donos das grandes 
rádios convencionais.


Para termos um parâmetro mais preciso ainda, vamos ver que a somatória de toda 
a potência das mais de 500 emissoras comunitárias já existentes na grande São 
Paulo, não chega a metade da potência de uma só emissora comercial que atinge 
normalmente 100.000 Watts e, se somarmos a potência das emissoras de FM, mais 
as emissoras de OM, mais as emissoras de ondas curtas, TV. VHF, UHF, 
Radioamadores que somam 40.000 em todo o Brasil além de outros serviços de 
radio-comunicação Faixa do Cidadão (85.000 no Brasil), Telefonia Celular 
(incontável número), Comunicação Oficial e Comercial, Radio Taxi, etc. vamos 
notar uma potência dissipada nos ares da cidade paulistana de mais de 
650.000.000 de Watts (números  da própria ANATEL) e não seria aquela parcela 
insignificante de radiodifusores comunitários que poderiam causar o estrago que 
alegam na mídia.


Ao pousarem no aeroporto de Congonhas em São Paulo, os aviões passam apenas a 
800 metros paralela a Av Paulista (Centro das maiores potências de Radio e TV 
das Américas) e também não se sabe de nenhum distúrbio de interferências.


Em entrevista á revista Imprensa n. 159 de abril/2001 página 18, o jornalista 
Heródoto Barbeiro falando sobre supostas interferências das rádios comunitárias 
em aeronaves, diz: -      "...Eu já entrevistei mais de uma pessoa técnica a 
respeito desse assunto e disseram que pode interferir. Mas nenhuma disse que 
interferiu de fato. Aí vem os empresários... Certamente são representados pela 
ABERT. Mas eu acho que as pessoas que exercem determinada atividade comercial 
tem que entender o seguinte: não é uma economia de mercado isso aí? Então você 
tem que suportar a concorrência, desde que seja uma concorrência leal..." 


Em outra entrevista para a Revista FLY de fevereiro de 1998, o engenheiro de 
segurança de voo da VARIG dr. Aberdal Nogeira Jr. Declara que as aeronaves de 
sua empresa "...são testadas e analisadas sistematicamente em angares da 
companhia, no sentido de buscar e solucionar qualquer tipo de possibilidade de 
insegurança..." , e que jamais soube desse tipo de interferência imputado nos 
discursos dos radiodifusores, mesmo por que (já naquela época) nas aeronaves 
estavam sendo implantados sistemas de navegação por GPS (navegação por 
satélite) para permitir uma absoluta segurança nos procedimentos de aproximação 
e navegação monitorada.


Ouvimos também campanhas sobre supostas interferências em ambulâncias. Aí é que 
a barbárie das mentiras criam forças descomunais. 


Procuramos saber na Divisão de dados e estatísticas da Secretaria de Estado da 
Saúde (também em 1998), e também no COETEL (Conselho Estadual de 
Telecomunicações da Casa Militar de Governo de São Paulo), quantas ambulâncias 
a cidade de São Paulo dispunha no sistema de Estado e Privado, chegamos ao 
número de 2.350 veículos, contando com as ambulâncias do município, do Estado, 
das clínicas particulares, dos hospitais públicos e privados bem como dos 
serviços de resgate dos Planos de Saúde, e fomos também informados que apenas 5 
(cinco) desses 2.350 possuem sistemas de comunicação via rádio e que mesmo 
assim, 2 deles funcionam por ondas curtas. Acabamos então por entender que 
supõe-se interferências até em ambulâncias que não dispõe de rádio. Nesse bojo 
de argumentações, também podemos concluir que todo e qualquer sistema de 
comunicação de emergência hoje (ambulância, bombeiros, resgate), se dá atraves 
do sistema mais versátil que existe que são os telefones celulares, nextel e 
outros similares, e tenho certeza que nunca nenhum usuário desse tipo de 
comunicação e telefonia, sofreu qualquer interferência de qualquer tipo de 
rádiodifusão.


Deixa nos pensar que todo esse boato não passa de artimanhas de interesses dos 
proprietários das grandes emissoras para emperrar a democratização dos meios de 
comunicação via radiodifusão comunitária já tão tardia e tão discutida no 
Brasil.


Na verdade desse caso, as empresas aéreas estão sendo colocadas nesse jogo 
falacioso, sem a sua anuência e responsabilidade. Os donos das emissoras de 
rádios comerciais, não tendo onde se pegar, apelam para o terrorismo 
verborrágico nas suas caras campanhas difamatórias, irresponsáveis e 
anti-democraticas, colocando em risco a tranqüilidade dos passageiros aéreos e 
dos mais desavisados com boatarias inconsequentes. 


Varias foram as tentativas de convocar um diálogo aberto e democrático diante 
da imprensa com os representantes e técnicos das grandes emissoras e os 
militantes da radiodifusão comunitária, mas até hoje, não se pronunciaram. 
Talvez seja esse o tipo de jornalismo "ético e democrático" que eles pregam em 
suas emissoras.


Gostaríamos de saber, o que eles temem? Do que se escondem? Quais são suas 
verdadeiras "intenções" com a preocupação repentina pela "segurança"... 


Sabemos que os interesses ideológicos dos proprietários dessas grandes rádios 
são ameaçados a cada vez que se instala uma nova emissora comunitária.


Afinal é isso, Democracia é um bem que se conquista com luta e participação 
cotidiana, mesmo sabendo que existem poderosos que relutam para impedi-la.

*Chico Lobo   revistapalco@xxxxxxxxxxxxxxxxxx

Pesquisador de rádio propagação em VHF, autor do livro "Radiodifusão 
Alternativa". Radioamador e professor de radiodifusão, nos últimos 20 anos 
ministrou mais de 80 cursos em entidades afins. Colaborou na instalação de mais 
de 200 emissoras de rádios comunitárias em todo o Brasil, respaldado e 
reconhecido por inúmeras autoridades em muitas publicações oficias. 
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