[radiolivre] Lula, Pelo amor de Deus (Mino Carta)
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- Date: Tue, 25 Jul 2006 20:45:18 -0300
MINO CARTA
*LULA, PELO AMOR DE DEUS...*
Imploração ao presidente para que não assine o projeto nascido do trágico
conluio entre a Fenaj e o Pastor Amarildo
Coisas deste país, único em que os jornalistas chamam de colega quem lhes
paga o salário, e onde o nome do mais perfeito representante do poder
midiático, Roberto Marinho, foi dado a imponente conjunto viário paulistano,
outrora batizado poeticamente de Água Espraiada. A placa esclarece,
pressurosa: JORNALISTA.
Então, vejamos. Aguarda a sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva o
projeto de lei da Câmara PLC 00079 2004, aprovado pelo Senado no início do
mês. Atualiza a profissão (atualizar é o verbo usado pelos seus autores),
amplia a exigência de diploma para exercê-la e eleva a arrecadação do
imposto sindical. Eis aí mais uma invenção verde-amarela. Não sei de
exigência igual, ou similar, em prática em qualquer outro canto do mundo.
A história começa em 1969, tempo de ditadura fardada. Os gendarmes da elite
estavam preocupados com o *day after* dos milhares de reprovados pelos
vestibulares. Excedentes desgostosos a tomarem cerveja pelos bares da vida.
Era oportuno tirá-los das calçadas com a sedução de cursos novos. E fáceis.
Nasceu ali a obrigatoriedade do diploma. Decisão fascista, para empregar o
vocábulo exato.
O novo projeto, elaborado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e
apresentado pela primeira vez pelo deputado Pastor Amarildo (PSB-TO), dilata
de 11 para 23 as funções jornalísticas, entre elas reportagem fotográfica e
cinematográfica, edição de sites, comentário esportivo, diagramação e charge
política. Sim, sim, coisas nossas, do arco-da-velha.
Atenção, irmãos Caruso, Baptistão, Angeli e tantos outros que esgrimem com o
lápis. Atenção, diretores de arte e diagramadores em geral. Atenção, mestres
da objetiva e nem tanto. Atenção, Sócrates, Casagrande, Tostão etc. Cuidem
rapidamente de providenciar seu registro para habilitar-se à atividade que
praticam há anos, ou décadas.
O presidente da Fenaj, Sérgio Murillo, está, porém, eufórico. "É uma imensa
vitória", proclama. Celebra a derrota do senso comum, aplastrado pelo
autoritarismo tão enraizado nas entranhas de tantos brasileiros. Como
sempre, reina a maior confusão na área e nas cabeças. A questão é outra, e
tem a ver com a estrutura do poder nativo, e com a prepotência dos seus
donos.
Nos meus anos verdes, saí do Brasil e fui para Turim para trabalhar na
redação do jornal La *Gazzetta del Popolo*, que se declarava independente,
tinha alguma tendência conservadora, mas praticava um jornalismo honesto e
era da propriedade de um fabricante de biscoitos, senador pelo Partido
Democrata Cristão. Lá fiquei por um ano e meio, e no período o patrão jamais
visitou seu jornal.
Mais me impressionou, no entanto, que, por lei, fosse negada aos empresários
(repito, empresários) a direção de redação de órgãos midiáticos. O *Gazzetta
* passou por maus momentos financeiros e o dono buscou a ajuda do seu
partido. Conseguiu, o jornal tornou-se para-democrata cristão, sem que isso
o levasse a comparecer em sua sede. Outra lei garantiu minha saída.
Demiti-me com direito à indenização plena. Autorizava-a a mudança de linha
política.
Tal é o ponto, no meu entendimento. Precisamos de outro gênero de projetos,
em proveito da democracia. Da meritocracia. Da valorização do jornalismo
como instrumento a favor da nação. Da iluminação do público. Do nivelamento
por cima. Da contemporaneidade do mundo. Enquanto houver diretores de
redação por direito divino, viveremos uma Idade Média.
Presidente Lula, preste um imenso favor ao seu Brasil: não assine o projeto.
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