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- Date: Sun, 28 Aug 2005 11:28:02 -0300
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Foto Antonio Cruz/ABr
Gestão de Hélio Costa preocupa entidades da sociedade civil
Proximidade do novo ministro das Comunicações com o grande empresariado
da área preocupa organizações da sociedade civil, que temem retrocessos nas
políticas construídas nos últimos anos, principalmente nas áreas de
radiodifusão digital, software livre e rádios comunitárias.
Jonas Valente - Carta Maior 16/08/2005
Brasília - Relegada à moeda de negociação em todas as reformas
ministeriais da gestão de Lula, a pasta das Comunicações foi usada para ampliar
a participação do PMDB durante no último episódio da dança das cadeiras no
primeiro escalão do governo promovida pelo Planalto. A entrada de senador Hélio
Costa (PMDB-MG) foi resultado de uma movimentação para atrair setores da sigla
não tão convictos da posição de apoio ao Governo Federal, retirando o até então
titular Eunício Oliveira, deputado pelo PMDB do Ceará e integrante da ala
governista da legenda. Apesar de não ter havido mudança no partido que comanda
a pasta, a proximidade de Hélio Costa com o empresariado de comunicação vem
preocupando as organizações da sociedade civil da área, que temem retrocessos
nas iniciativas construídas por Eunício e Miro Teixeira, primeiro ministro das
Comunicações de Lula, e o avanço da agenda defendida pelos donos dos grandes
veículos de comunicação.
Hélio Costa fez sua carreira política a partir de sua ação como
radiodifusor no interior de Minas Gerais. No Senado, demonstrou porosidade às
posições do empresariado, principalmente da Associação Brasileira de Empresas
de Rádio e TV (Abert), organização que congregava as grandes empresas de mídia
mas que, após sucessivos rachas, passou a contar com a participação da Rede
Globo e demais grupos de expressão regional. "Historicamente, Hélio Costa tem
defendido no Congresso Nacional os interesses dos grandes empresários da
comunicação do país, representados principalmente pela Associação Brasileira de
Emissoras de Rádio e Televisão (Abert). Agora, comprova que sua gestão tem
pouca disposição para dialogar com a sociedade civil e democratizar as
comunicações no país - política esta que, vale lembrar, estava na essência do
programa de governo de Lula", diz a carta "A quem interessam as propostas de
Hélio Costa", divulgada pelo Intervozes - Coletivo Brasil de Comunicação
Social.
"O problema é anterior à posse de Hélio Costa. O Minicom tem sido
protelado como pasta estratégica para o governo, que retirou dela seu papel de
formulador das políticas de comunicação. O fato dele ser moeda de troca nas
negociações de Lula tem gerado titulares ligados aos interesses empresariais e
atrapalhado as ações uma vez que a cada mudança há uma reorganização das
políticas", analisa Celso Schroeder, do Fórum Nacional pela Democratização da
Comunicação. O presidente do Congresso Brasileiro de Cinema, Geraldo Moraes,
fez avaliação ao Boletim Prometheus, informe especializado na área, produzido
pelo Instituto de Estudos e Projetos em Comunicação e Cultura (Indecs), que a
perspectiva é inexistir no Minicom qualquer posição ou iniciativa para definir
mais regras no setor audiovisual uma vez que Hélio Costa representa o interesse
das grandes redes, que historicamente se caracterizaram por defender como
política a falta de regulação do setor.
Radiodifusão digital
Já nas primeiras semanas de sua gestão à frente da pasta, o ministro deu
demonstrações de que as apreensões dos movimentos e organizações tinham sentido
de existir. O primeiro questionamento de Costa se deu em relação ao Sistema
Brasileiro de Televisão Digital, proposta de criação de uma política para a
conversão a transmissão do sinal de TV do formato analógico para o digital com
desenvolvimento científico, soluções e especifidades próprias voltadas às
necessidades brasileiras. Para estudar esta possibilidade, o governo
disponibilizou R$ 65 milhões para pesquisas em 11 áreas que hoje envolvem quase
80 instituições. Hélio Costa chegou a sugerir uma movimentação para jogar areia
no SBTVD em prol da escolha de um dos padrões já existentes hoje no mundo
(Estadunidense, Europeu ou Japonês). O ministro contemporizou algumas
declarações dadas por ele mesmo, afirmando que o país deveria aproveitar o
acúmulo já produzido em outros locais adicionando contribuições locais, mas há
a apreensão de que o objetivo do SBTVD seja subvertido e que o trabalho dos
consórcios de pesquisa não seja aproveitado, colocando o Brasil dentro de uma
nova realidade para um setor estratégico em uma posição de mero consumidor de
tecnologias produzidas no exterior.
Mas uma preocupação mais emergencial das entidades da sociedade civil
está na digitalização dos serviços de rádio, que não possui um processo de
estudo como no caso da TV e pode ser feita "na calada da noite". Hélio Costa
vem anunciando que irá permitir transmissões em caráter experimental em 12
capitais do sinal de rádio digital a partir do modelo estadunidense, o IBOC (In
Band On Channel). "Esta será uma forma elitista de encaminhar esta questão,
onde o atendimento aos interesses do empresariado está explícito, ignorando o
acúmulo da sociedade civil, da academia e do governo no assunto", contesta
Celso Schroeder. "Queremos que este debate seja feito com a sociedade para
vermos a melhor forma de proceder com esta mudança", completa Clementino Lopes,
da Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária - Abraço. Estudos feitos
por acadêmicos brasileiros já mostram que o IBOC funciona de forma totalmente
proprietária (é preciso pagar royalties e não é possível produzir uma versão
brasileira dos componentes e programas) e com pouca ou nenhuma margem de
democratização do espectro eletromagnético (o que não permite mais estações de
rádio no dial no processo de digitalização).
Rádios comunitárias
O processo de digitalização do sinal de rádio não é a única preocupação
da Abraço. Acaba de ser finalizado um relatório produzido por um grupo de
trabalho interministerial com orientações de políticas, ações e normas para as
rádios comunitárias. O conteúdo do relatório ainda é restrito, mas a avaliação
preliminar a partir de algumas informações obtidas junto a membros do GTI é que
ele contém algumas reivindicações feitas pelas entidades da sociedade civil. Um
grupo de 11 entidades, integrado entre outras pela Abraço e pela Associação
Mundial de Rádios Comunitárias (AMARC), participou da maior parte do processo e
apresentou várias propostas para o GTI. Entre elas a anistia para as pessoas e
equipamentos apreendidos pela Justiça em processos contra rádios comunitárias
não legalizadas, aceleração do processo de outorgas, o desarquivamento de
quatro mil processos engavetados no Ministério e a revisão das permissões já
dadas.
"Queremos inveter a lógica que existe na permissão das outorgas. Hoje
grande parte dos processos parados é relativa a rádios realmente comunitárias,
enquanto muitas das legalizadas conseguiram a aprovação por meio de indicação
de políticos", diz Clementino Lopes. Além da reestruturação da política de
outorgas, as entidades defendem que as TVs comunitárias possam transmitir em
sinal aberto (hoje elas só podem operar na TV à cabo), 30% do espaço do dial
para emissoras comunitárias (a indicação da lei é de apenas em freqüências
abaixo de 88 MHz), a formação de rede e um sistema de financiamento misto.
"Hoje existe apenas a figura do apoio cultural, com uma série de restrições.
Defendemos a permissão de publicidade nas rádios comunitárias, mas como forma
de obter receita e não lucro, junto com recursos oriundos de um fundo público
de apoio às emissoras comunitárias", continua Clementino.
Outro ponto caro ao movimento de rádios comunitárias é a realização de
uma conferência nacional precedida de etapas regionais para debater a situação
da área. Esta proposta já havia sido aprovada no âmbito do GTI mas foi abortada
com a alegação de "falta de recursos". As organizações sabem que, se alguma
destas propostas estiver contempladas, provavelmente será alvo de contestação
por parte do ministro. A movimentação começou antes mesmo da finalização do
relatório, quando na última reunião as organizações das rádios comunitárias não
puderam ter acesso ao encontro enquanto a ABERT esteve presente. Com este
cenário e os interesses de Hélio Costa, as entidades se mantém vigilantes,
esperando o resultado da reunião entre o ministro e o presidente que deve
acontecer esta semana para debater o relatório.
Inclusão digital
Uma das grandes surpresas do governo Lula, a política de inclusão
digital, também já sofre os efeitos da presença de Hélio Costa. O ministro fez
ao mesmo tempo uma movimentação interna e uma externa. Dentro do Minicom,
retirou o "último foco petista" demitindo Antônio Albuquerque, responsável pelo
Departamento de Serviços de Inclusão Digital da pasta. Em carta, os gestores
estaduais do programa Governo Eletrônico - Serviço de Atendimento ao Cidadão
(Gesac), principal iniciativa do departamento, criticaram a decisão. "O papel
desempenhado pelo diretor Antônio Albuquerque e sua equipe foi imprescindível
para os resultados ate aqui alcançados. Há que ressaltar a concepção e respeito
a construção de diversas metodologias nos Estados parceiros, o que caracteriza
descentralização e um profundo entendimento e prática do federalismo". Segundo
o documento, o Gesac hoje conta com 3.200 pontos de acesso à internet em todo o
país, atendendo aproximadamente uma rede de 4 milhões de pessoas, entre elas,
comunidades marginalizadas, nações indígenas, quilombolas e trabalhadores
rurais sem terra.
Em uma jogada externa, Hélio Costa está brigando para centralizar todas
as ações de inclusão digital em sua pasta. Hoje o principal programa é o Casa
Brasil, operado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia e pelo Instituto
Nacional de Tecnologia da Informação (ITI), órgão ligado à Casa Civil. Há
também iniciativas em diversas estatais e projetos mais pontuais em outros
ministérios. Os programas vinham sendo elogiados pelas entidades da sociedade
civil por trabalharem com uma concepção autônoma e emancipatória da apropriação
das tecnologias da informação e da comunicação (TICs). Dentro destas ações, os
órgãos, principalmente o ITI, operavam uma mudança considerável que sempre
incomodou o empresariado da área de informática e comunicação: a promoção do
uso de software livre (programas não proprietários com código-fonte aberto)
tanto nos órgãos do governo quanto nos pontos de inclusão digital montados em
mais de quatro mil comunidades do país.
Esta política vinha encontrando resistências por parte do Ministério do
Desenvolvimento, Indústria e Comércio, com posições fortemente influenciadas
pelo lobby da Microsoft, principal prejudicada. Antes de manifestar seu
interesse explícito nesta área, Costa já havia manifestado seu receio em
relação ao uso do software livre, alegando que a manutenção dos programas seria
problemática e teria alto custo. A preocupação dos militantes da área é grande,
uma vez que o ministro pode desmontar os avanços já obtidos e influenciar no
importante papel crítico que o governo brasileiro vem tendo na defesa de uma
gestão internacional da informação e do conhecimento mais democrática. Ao que
tudo indica, a briga será ganha por Costa. Ele pediu as ações de inclusão
digital e condução do processo de discussão da Lei Geral da Comunicação Social
Eletrônica à Casa Civil e ficou com o primeiro. Militantes avaliam que o alvo
do ministro era a área de inclusão digital uma vez que ela mexe com interesses
de grandes corporações internacionais e é difícil o governo se movimentar com
uma proposta de lei geral para mexer no vespeiro da regulação da radiodifusão
neste momento de crise.
Em meio a este cenário que se mostra cada vez mais difícil para a
sociedade civil organizada, as entidades mantém a luta por suas bandeiras.
"Esperamos deste ministério atitudes concretas para inverter o paradigma da
mídia brasileira, que deve servir ao interesse público, em detrimento da busca
do lucro. Em síntese, defendemos o abandono de uma política para o setor
baseada na troca de favores e de concessões de rádios e TVs, usadas por parte
da classe política como instrumentos eleitorais. E reafirmamos a importância de
se avançar na reformulação do marco regulatório e político da comunicação
social brasileira de forma a promover o direito humano à comunicação, para que
seja garantido o interesse público e não o interesse mercantil de poucos e o
silêncio da maioria", expressa a carta do Coletivo Intervozes.
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