[radiolivre] Re: En: Racismo e fraude

olas, oi vini, oi dioclecio, 
 
Vini temos muito o q conversar sobre o aborto - ainda sobre aquela discussão da 
mensagem que marina enviou e não deu tempo (mesmo!) de dialogar e não sei se 
aqui é o espaço e em outubro a gente se ver aí na ilha, então....
 
Sobre este texto que você jogou aqui na roda, eu quero colocar o que 
penso.Edito a revista Toques d'angola do INCAB- instituto nzinga de capoeira 
angola e tradições educativas banto no brasil www.nzinga.org.br e sou 
anti-racista.
 
 
Primeiro: COTAS PARA PESSOAS NEGRAS NÃO IMPEDEM A MELHORIA DA EDUCAÇÃO 
FUNDAMENTAL, MÉDIA OU SUPERIOR, NEM A CRIAÇÃO DE COTAS PARA PESSOAS DE BAIXA 
RENDA. Como argumenta o autor e outras pessoas por aí.
 
Há anos muitos homens públicos tentam argumentar que convivemos numa democracia 
racial. O sr. Ali Kamel segue o mesmo raciocínio quando questiona quem é branco 
no Brasil. Estamos falando de fenótipo. Convivo com pessoas negras. E se entro 
num supermercado, logo alguns seguranças nos olham mais atentos... brancxs 
tomam um baculejo dos canas, certo ? E negrxs ? Se cruzarem numa rua com um 
cana é baculejo na certa! Acredito que a sociedade sabe bem quem são xs negrxs, 
os canas sabem, o porteiro sabe, a minha avó (negra) sabe.
 
Historicamente, a raça negra foi violentada em diversos níveis. E isso resulta 
em vários mecanismos de defesa, por parte de seus descendentes. Muitas pessoas 
negras não puderam admitir suas raízes, seus cultos... E até hoje algumas 
pessoas preferem se autoafirmar como morenas, pardas, que como negras (como a 
minha avó , acima mencionada).Quando comemoramos a abolição da escravatura 
estamos ignorando que tiramos  xs escravxs das senzalas e os colocamos no 
morro, bem longe do convívio com a elite e sem as menores condições de inclusão 
social. Entende, tiramos, nós brancos há séculos atrás rainhas, reis, 
guerreiras e guerreiros e com a mão no gatilho e a pólvora a nosso dispo,r 
lançamos todxs como animais em nosso novo mundo. E muitos já morreram para 
reverter essa história.  
 
Obviamente, reverter este quadro  perpassa muitos planos. Vai  desde o plano 
individual a construção da alteridade como marginal, subindivíduo, minorizado 
que cada negrx sofre. Tenho amigxs negrxs  , inclusive aqui na unb tem um grupo 
muito interessante que se chama enegresser, de jovens negrxs que esmiuçam como 
o preconceito racial é desumano. por exemplo não é tema de pesquisas na 
antropologia, ou na psicologia. Sim, parecem que existe apenas 2 em toda a 
história do curso sobre RACISMO, tem várias sobre etnocentrismo, mas nenhuma 
sobre racismo, racismo e identidade, racismo e formação do brasil. E vai até 
isso, subverter a academia, o mercado de trabalho, etc... E sim o mercado de 
trabalho é racista. Outro dia fui numa loja da Vivo aqui em Brasília e aqui 
pelo menos só trabalha gente jovem, sarada e branca ! 
 
DEsqualificar políticas de ação afirmativa como o autor faz, em nome da culpa 
branca, dizendo que a população branca não tem culpa. Epa ! Mas teve e muito, 
infelizmente a cor da pele já determinou a quantidade de sol que você podia ver 
durante o dia, já determinou qual deus você deveria cultuar, já determinou  de 
que lado do oceano você deveria ficar.
 
O simples fato de incomodar tanto colocar a raça negra em iguais condições para 
com a raça branca já é bem revelador de quão racista somos. A adoção das cotas 
é uma política de ação afirmativa (mais ou menos o que ele cobra em determinado 
momento do texto, que seria uma forma de identificar as desigualdades sociais 
que existem em função da pluralidade de raças e a partir daí agir politicamente 
para combatê-las) 
 
E aí sim algumas pessoas da elite branca, tem feito ações afirmativas. Por 
exemplo, outro dia precisavam de uma assessora de imprensa no CFemea e a vaga  
foi para uma negra. Muitas empresas têm colocado cotas para negrxs em seus 
quadros profissionais. E comemoramos ontem as 137 pessoas negras qye entraram 
pelo sistemas de cotas na UnB ! Uma vitória do movimento negro !
 
sei  que muitas pessoas podem perguntar pq uma pessoa branca defende cotas para 
pessoas negras ? Porque tenho um compromisso forte com a luta contra o racismo. 
E é em espaços majoritariamente "brancos" que ter uma pessoa branca 
argumentando contra o racismo pode fazer a diferença. E assim vamos construindo 
uma roda onde as pessoas negras possam pertencer. É como diia Pastinha "era eu 
era meu mano, era mano e era eu, você não joga sem eu." Ou seja, convivemos  
com o outro nesse mundo louco, com suas cores, suas gingas, seus jogos, seus 
ritmos ! 
 
Agora esse texto tem um lugar de fala branco e acho leviano desmerecer toda a 
luta de um movimento, no caso o movimento negro, em nome da culpa branca, e dos 
demais argumentos como questionar os números do IBGE, etc...  Existem outras 
pesquisas (as do IPEA, por exemplo) existem outros textos, existem outros 
referenciais menos hipócritas. Tem uns links e uns bloggs... o das minas do 
geledes (maravilhosas !), do nei loppes, do edson lopes cardoso, tem os novos 
quilombos em salvador, quem foi no carnaval revolução pode conhecer o mandingo 
que bateu um papo com a moçada sobre o hiphop como ferramenta de resistência 
negra, panteras negras e por aí vai... 
 
E você o que acha ? Qual a sua opinião sobre o texto ?
 
Oraiê-iê-iê !
Ngolo, nguzo
Jul
 


Vinicius Rodrigues Correia <vinirc@xxxxxxxxxxxxxxxxxxx> wrote:
Tudo bem. O cara pode ser da rede globo, ser poderoso, escrever para o jornal O 
Globo, etc...
Mas quanto ao texto em si?????? e o conteúdo do texto???????????????
 
Independente de ter sido escrito por Deus ou pelo Diabo...
Importa a autoria??? Será mais um caminho para o preconceito??
Considerar o autor, não nos levaria a conclusões precipitadas?? 
Se não tivesse sido informado o nome do autor?? A reação seria outra??
Se o autor fosse Arnaldo jabor??? E se fosse Nelson Mandela??? E se fosse Chico 
Buarque??
 
 
repito:
Mas quanto ao texto em si?????? e o conteúdo do texto???????????????
 
----- Original Message ----- 
From: Dioclécio Luz 
To: radiolivre 
Sent: Monday, July 12, 2004 5:42 PM
Subject: [radiolivre] Re: En: Racismo e fraude


Pra quem não sabe, esse cara é um dos poderosos da TV Globo. E a TV Globo é 
essa emissora que já deve ter feito uma centena de novelas, mas apenas este 
ano, 2004, colocou uma negra no papel principal.
 
Dioclécio
 
>  

> 

> Para pensar...
>  
>  

Rio, 15 de junho de 2004 





 

Racismo e fraude

ALI KAMEL

A campanha para provar que o Brasil é um país racista não esmorece. Há uma 
semana, o IBGE divulgou pesquisa sobre emprego e raça, e os jornais concluíram 
que os dados ?comprovavam? que os negros são discriminados no mercado de 
trabalho. Foi um erro, um passo além do que os números permitiam dizer. A 
pesquisa revelou que os negros ? a soma de pretos e pardos ? são a maioria dos 
desempregados, têm as piores ocupações e ganham a metade do salário dos brancos 
(essa ficção, quem é branco no Brasil?). Mas nada no estudo permitia dizer que 
os negros estão nessa condição porque o Brasil é racista ou porque os brancos 
são racistas ou porque os empregadores discriminam os negros. A pesquisa não 
mostrou, porque isso seria impossível, que um engenheiro negro ganha metade do 
que ganha um engenheiro branco. Ou que um porteiro branco recebe o dobro do que 
recebe um porteiro negro. Como já mostrei em artigos anteriores, os negros 
vivem essa situação porque são, na maioria, pobres e, como tod
 os os
 pobres, tiveram acesso a escolas piores, a um ensino deficiente. Sem estudo, 
não há trabalho, não há emprego, não há bons salários. 

O governo, no entanto, em vez de concentrar esforços para elevar a qualidade de 
ensino no Brasil e para dar escola de bom nível a todos os pobres, sejam 
brancos, negros ou pardos, parece preferir colocar a culpa nos brasileiros 
brancos. É, sem dúvida, uma solução simples: tira a responsabilidade de si 
próprio, faz crescer um sentimento de culpa nos brancos, leva os negros a 
culpar os brancos pelas condições em que vivem e a agradecer ao governo o favor 
de denunciar a situação. Mas não resolve o problema, e pode criar outros, tão 
ou mais sérios: o ódio racial, sentimento que até aqui desconhecíamos, e 
demandas impossíveis de atender. Daqui a pouco, anotem, haverá quem proponha 
uma lei estabelecendo aumento salarial de não sei quantos por cento aos negros 
para que a distorção salarial seja sanada. Para parecer sensata, a proposta 
será de pequenos aumentos anuais por um prazo de x anos, até que negros e 
brancos ganhem salários iguais. Se os negros no Brasil ganham menos porque s
 ão
 discriminados, nada mais correto do que corrigir a situação por decreto. 

Não, nada é simples. O mal deste país não é o racismo. Ele existe aqui, como em 
todo lugar, mas, entre nós, nem de longe se transformou na marca de nossa 
identidade. Sempre nos orgulhamos do nosso ideal de nação, um país de 
miscigenados, em que o próprio conceito de raça faz pouco sentido. A 
Grã-Bretanha está em meio a uma campanha para que os britânicos se aceitem como 
uma nação multiétnica: no metrô de Londres, há cartazes em que se vêem uma 
jovem muçulmana envolta num véu feito da bandeira nacional, um negro com um 
boné de rapper também nas cores da bandeira, um asiático com um aplique na 
roupa nas mesmas cores e um branco com uma bandeira simulando uma mochila. 
Todos britânicos, mas sem mistura. Uma nação multiétnica, portanto. 

Até há pouco, os brasileiros riríamos dessa iniciativa. Querendo deixar o 
racismo para trás, os brancos britânicos se esforçam ao menos para acolher como 
concidadãos pessoas de outras raças, desde que não se misturem. Os que vêem o 
Brasil como racista querem dar dois passos atrás. Não nos reconhecem nem como a 
nação miscigenada que sempre quisemos ser, nem como uma nação multiétnica, com 
uma infinidade de cores, cafuzos, mamelucos, mulatos, brancos, pardos, pretos. 
Querem-nos uma nação bicolor, apenas negros e brancos, com os brancos oprimindo 
os negros. É triste. 

O nosso problema não é o racismo, mas a pobreza e o modelo econômico que, ao 
longo dos anos, só fez concentrar a renda: os que eram pobres ? e os negros, 
ex-escravos, por definição foram os despossuídos da nação ? permaneceram pobres 
ou ficaram mais pobres; e os que eram ricos, ricos ficaram ou enriqueceram 
ainda mais. O Brasil deveria estar unido para resolver esse problema, 
distribuindo renda e investindo maciçamente em educação. Quando os pobres deste 
país tiverem uma educação de qualidade, todos terão a mesma chance no mercado 
de trabalho. E as distorções entre brancos e negros terão um fim. Em vez disso, 
o governo só busca saídas paliativas: não faz nada para garantir boa educação, 
mas cria cotas, para que os negros entrem na universidade, sem o preparo 
devido, o que, muito provavelmente, não fará deles profissionais competitivos e 
aumentará a frustração. 

PS: Segundo o IBGE, 49,2% dos desempregados são brancos e 50,4%, negros, 
praticamente um empate. Dizer que isso é a prova de que há racismo no mercado 
de trabalho é algo que entendo como fraude. 


ALI KAMEL é jornalista.




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