[radiolivre] Análise de Lula e as rádios comunitárias
- From: "Dioclécio Luz" <dioclecioluz@xxxxxxxxxxxx>
- Date: Tue, 30 Dec 2003 20:27:50 -0200
Amig@s
Eis um artigo de minha autoria, que está no sitio
www.observatoriodaimprensa.com.br
Dioclécio
O MEDO NAS RÁDIOS COMUNITÁRIAS
Um ano de Governo Lula
Dioclécio Luz*
Lula nas paradas de sucesso. Festeja-se um ano de Governo. Mas ele já avisou
para beber com moderação: o primeiro ano foi só de arrumação da casa. Qual a
casa? A casa deles. Parabéns pra você, elite nacional. Continuamos sem-terra,
sem-teto, sem-sonhos, sem-voz, sem-água, enfim, sem-Brasil. Nesse Governo
transgênico ou pro-transgênico, sobrou pra nós o brasil minúsculo.
No caso da comunicação, é mais um ano perdido em nossa vã existência. Entra e
sai Governo e os coronéis da comunicação continuam mandando no Governo. Os
latifúndios permanecem quais pedras encravadas, atravancando o destino deste
Brasil.
A novidade é que os usineiros da comunicação e da cultura mais uma vez estão
quebrados. Não têm grana para botar combustível no iate em Angra nem como pagar
o mordomo suíço. Cresceram com base num capital irreal, apostando num mercado
irreal, e agora caem no país real. Em 2002 fizeram o Estado mudar a
Constituição pra ver se entrava grana estrangeira. Não deu certo. Agora querem
o de sempre: grana pública pra sobreviver.
A grana é muita, acredite. Só na cobertura dos jogos pan-americanos de Santo
Domingo, em junho de 2003, a Caixa Econômica e os Correios, juntos, botaram na
TV Globo R$ 5,2 milhões.
Se este fosse um Governo popular, preocupado em democratizar o acesso aos meios
de comunicação, iria encarar esses coronéis, os donos desse latifúndio. Lula
poderia chamá-los num canto e determinar: "tudo bem, a gente empresta, mas a
gente vira sócio". Que tal? Doideira? Não, porque são essas as regras normais
do mercado. Se essas famílias jurídicas forem ao mercado ele vai dizer a mesma
coisa: eu entro com a grana, mas mando. Ocorre que nessas horas o capital quer
socializar o prejuízo - o Estado entra com a grana, abaixo de valores de
mercado, mas eles continuam mandando. Quem topa isso, filantropia pros ricos
com dinheiro público? Zé Dirceu, primeiro-ministro dessa República, já falou
que a questão da Globo é questão de Estado. Por quê falou isso? Assinale, na
coluna abaixo, o que lhe parece a resposta correta: a) por sentimento de
vassalagem; b) puxa-saquismo explícito; c) medo desses coronéis da comunicação.
Assinale e jogue fora.
Mas o teste não acabou. Pergunta-se: por que Lula decretou luto oficial pela
morte de Roberto Marinho? a) ele não sabia quem era Roberto Marinho; b) Lula
não mora no Brasil; c) Lula nunca ouviu falar nas organizações Globo; d) medo.
Qualquer das respostas assinaladas não resolvem o problema. O terreno das
comunicações continua entregue a sete coronéis. Sete famílias nos dizem o que
comer, o que vestir, onde andar, quem presta e quem não presta, a quem devo
amar ou odiar, em quem devo votar. Os sete cavaleiros do Apocalipse continuam
mandando.
Do que vou tratar agora, porém, é mais dramático. Tirem as crianças da sala: o
sangue vai espirrar. Vamos falar das rádios comunitárias (RCs) - o que o
Governo está fazendo para acabar com elas.
Burocracia faz bem
No começo era o verbo. O ministro das comunicações, Miro Teixeira, anunciou que
faria uma revisão das autorizações de RCs concedidas no Governo anterior.
Estima-se que 90% das autorizações de rádios comunitárias do Governo Fernando
Henrique Cardoso fogem ao caráter de comunitária. Revisar seria uma boa. Mas
Miro não fez.
Intencionalmente o Governo puxou o debate para a burocracia, pro debate no
andar inferior: como agilizar o funcionamento do Minicom, o cartório que
concede títulos de bom comportamento às emissoras comunitárias? Priorizou a
agilização dos processos de RC. Tem 4 mil amontoados no Ministério das
Comunicações. Intencionalmente pulverizou uma discussão política maior
associada à questão das rádios comunitárias, que era o acesso aos meios e a
democratização dos meios. Ao invés de discutir política, o Governo resolveu
discutir burocracia.
Imbuído desse espírito natalino, em abril de 2003 o Governo constituiu um Grupo
de Trabalho (GT) para discutir mudanças nos procedimentos burocráticos. O GT
foi formado por figuras e figuras da área. E pra provar que falava sério, pra
provar de que lado estava, o ministro Miro Teixeira, botou nesse grupo um
representante da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV (Abert).
Para quem não sabe a Abert é inimiga declarada das rádios comunitárias. Ela
ainda hoje faz campanha contra as emissoras "piratas", mentindo para população
que derrubam avião. A Abert lida com emissoras comerciais, as grandes redes, os
latifúndios, é a UDR da comunicação. O que ela foi fazer num grupo criado para
lidar com rádios comunitárias? Ora, Miro sabe disso, a gente sabe disso: a
Abert foi lá impedir que as rádios comunitárias quisessem algo mais além da
miséria que já têm. Ela foi colocada por Miro Teixeira para impedir a
democratização dos meios de comunicação.
Esse GT, que funcionou de 2 de abril a 2 de julho de 2003, propôs uma série de
mudanças no procedimentos burocráticos. Com essas mudanças se agilizaria a
rotina de avaliação dos pedidos. Mas 2003 chega ao fim e a gente ainda está no
começo. Miro Teixeira implementou somente umas poucas mudanças cartoriais.
O GT resolveu também mexer na legislação das rádios comunitárias, propondo
novas redações para a Lei 9.612/98 e para o Decreto 2.615/98.
É importante avaliar o que foi feito aí.
O Decreto 2.615 é de julho de 1998. Se a lei já é ruim, o decreto é pior. O
decreto contém algumas aberrações. Por exemplo, ele vai além da lei ao
estabelecer o alcance de 1 Km (a lei fala em atendimento a comunidade de bairro
ou vila, com potência de 25 watts e não em alcance). Mas como esse era um
desejo dos coronéis, inconstitucionalmente foi feito, e está em vigor até hoje.
Pergunta para não responder:
Se é um decreto, se depende somente do Executivo modificá-lo, se ninguém que
lida com rádio comunitária concorda com esse decreto, se isso é um entrave a
democratização dos meios de comunicação, por que o Governo não modifica e
ajusta-o aos interesses populares?
Pois bem, o GT transgênico criado por Miro Teixeira, com suas figuras e
figuras, conseguiu a proeza de elaborar um decreto pior do que o original!
Reconheçamos: é preciso muita coragem e competência pra ruinzar o que já ruim.
E assim não aconteceu o óbvio nesse Governo Lula: a mudança imediata e para
melhor no decreto que regulamenta as rádios comunitárias.
Este Grupo de Trabalho chegou a apresentar uma proposta de Projeto de Lei para
o Governo. O GT, na verdade, condensou as muitas propostas positivas em
tramitação no Congresso Nacional, dando-lhe uma cara única. Ora, o Governo Lula
poderia sinalizar para a população, encaminhando este PL ao Congresso como
proposta sua. Mas esse Governo enfrentaria os ruralistas da comunicação e
defenderia esse projeto?
Não fez isso.
Resultado: porrada no povo.
A legislação furreca
A lei (9.612/98) e o decreto (2.615/98) que regulamentam as rádios comunitárias
não prestam porque estabelecem que elas funcionarão em um só canal em todo
país; não poderão entrar em rede; terão potência máxima de 25 watts; o alcance
será limitado ao raio de 1 Km a partir da antena; o Estado não as protegerá de
interferências de emissoras comerciais; os diretores da rádio terão que morar
dentro desse círculo de 1Km de raio; não podem fazer publicidade...
Mas tem quem goste dessa legislação. O ministro Miro Teixeira, por exemplo. Ele
já afirmou que 1 Km é bom para as rádios comunitárias.
Lá dentro do MC alega-se que se mantém o alcance de 1 Km por razões técnicas.
Isto não é verdade. De fato, com as rádios operando na mesma freqüência, cada
uma tem que limitar seu alcance para evitar que os sinais se misturem. O
problema é comum hoje no Brasil e acontece, principalmente com as autorizadas.
Há o caso de dois pequenos municípios brasileiros, separados por um rio, em que
mesmo operando com 1 Km de alcance, há mistura de sinais.
Afirmar, porém, que o limite de 1 Km é uma questão técnica é escamotear a
verdade. Porque a verdade é política. Quem disse que as emissoras devem ocupar
o mesmo canal em todo Brasil e por isso ficarem encolhidas em 1 Km? Resposta: o
latifúndio da comunicação. Eles, os coronéis da comunicação, reservaram para si
o espectro eletromagnético, que é um bem da União. Eles - donos de 98% dos
canais de rádio e TV no Brasil - determinaram que as RCs ficariam nos fundos do
terreno, no galinheiro, num canalzinho furreca.
Ao alegar motivos técnicos para sustentar a injustiça existente, é dada uma
resposta política que tenta ocultar a falta de vontade política de mudar a
legislação, e, mais que isso, o modelo de comunicação.
Sejamos francos: quando uma autoridade quer dar uma resposta política, mas
ocultando seu teor político, apela para imutabilidade da lei, ou diz que é uma
questão técnica.
Veja bem, quando a legislação (criada para atender determinado segmento
econômico) determinou que as emissoras operariam num só canal em todo país, a
Anatel cuidou de estabelecer este canal conforme os interesses políticos desse
segmento. E definiu por portaria o Canal 200, equivalente a freqüência de 87,9
Mhz. Salvo excepcionalidades regionais, todas as emissoras devem operar nesta
freqüência. Ora, ocorre que a faixa de freqüências para radiodifusão em FM vai
de 88 a 108 Mhz... Então, por "razões técnicas", como diz a Anatel,
colocaram-se as rádios comunitárias fora do dial! É como fazer uma reforma
agrária e botar o povo no meio do mar!
As razões disso, claro, são políticas. É a exclusão social descarada. Ela
continua. O Governo Lula fez mais.
Em dezembro de 2003, a Anatel disponibilizou para consulta pública na Internet
proposta de dois novos canais para as rádios comunitárias. Eles estão na
freqüência de 87,5 Mhz e 87,7 Mhz - isto é, também fora do dial, e mais abaixo
da freqüência oficial, 87,9 Mhz. Para dar legitimidade técnica a essa proposta
absurda, a Anatel solicitou e disponibilizou na Internet dois estudos feitos
pelo CPqD mostrando que os tais canais são viáveis. É tão viável que o CPqD
sugere a Anatel conversar com os fabricantes de aparelhos de rádio para fazerem
modelos que garantam a recepção nestes canais...
Propostas como esta sinalizam o profundo desprezo do Governo Lula por aqueles
que lidam com rádios comunitárias. Faz-se política conforme interesses, mas se
maquia como operação técnica e caridade, "presenteando-se" o povo com dois
novos canais. É sintomático que isto seja feito dentro da prática da "consulta
pela Internet" - um meio acessível a menos de 10 % da população brasileira,
exatamente aqueles que não estão envolvidos com rádios comunitárias.
Seguindo esta linha, o Ministério das Comunicações também colocou em consulta
pública uma nova Norma operacional para as rádios comunitárias. Embora
incorpore algumas propostas operacionais burocráticas do GT, ela traz também
alguns malefícios (por exemplo, ao definir "apoio cultural" como querem as
comerciais). E, claro, mantém o modelo existente.
A repressão
O Governo Lula está sendo mais eficiente que o Governo FHC na repressão às
rádios comunitárias. A regra é essa: não tem autorização do cartório de
Brasília, pau! Pelo menos uma rádio é fechada por dia no Brasil. Agentes da
Anatel e da Polícia Federal, armados de metralhadoras e fuzis, ocupam a
emissora de baixa potência, algemam as pessoas, humilham homens, mulheres e
crianças; prendem, indiciam em processo; levam cartazes, papéis, agendas, CDs,
computadores, transmissores,...
As ações são espetaculares. Mais parece que ocupam um ponto de tráfico de
drogas. E são somente homens, mulheres e crianças fazendo a comunicação.
Ninguém tem arma para encarar a Polícia. A grande maioria não dispõe nem de um
advogado para questionar a legitimidade das ações da Anatel ou da Polícia
Federal. Qual o crime dessa gente? Praticar a liberdade de expressão sem
autorização dos coronéis.
A grande mídia, metida à defensora da imprensa e da liberdade de expressão,
nessas horas se cala. Ou melhor, defende os seus interesses. A gente sabe, o
latifúndio da comunicação sabe: uma rádio comunitária (a voz do povo no ar) é
perigosa porque significa a propagação da inteligência, da reflexão, do pensar.
Por isso a grande mídia defende o cartório-Brasília, o papelório. Para a grande
imprensa só há liberdade de expressão quando a rádio se enquadra na legislação
vagabunda em vigor. Quem não se enquadra é tratado como bandido, ladrão,
saqueador, marginal, isto é, pirata.
Para um Governo aplicado em seguir os mandos dos coronéis, não estranha que
esse discurso de "rádio pirata" esteja encravado e verdejante lá dentro do
Ministério das Comunicações. Como era antes, e como era antes de antes. Nada
mudou. As rádios comunitárias que não têm o papel carimbado de Brasília são
tratadas como piratas, marginais, porque sempre foi assim.
Sejamos francos, o crime é federal porque é uma agressão ao capital. O Estado é
chamado a defender o capital, ou a lei feita pelo capital, com o melhor do seu
aparato repressor. O Estado precisa calar a voz dos subversivos. E o faz.
Mas, está bem, se somos legalistas, o que temos que fazer? Mudar a legislação?
Como, se ninguém se habilita a descascar a batata quente? O Executivo, já se
viu, não ousa enfrentar os coronéis. E, portanto, não vai mudar nada. O
Executivo, que poderia melhorar o Decreto, piorou; poderia apresentar um PL,
não enviou. No Legislativo há pelo menos 20 projetos melhorando a lei 9.612/98.
Mas não andam. Tudo emperrado. Uma dessas propostas contém a assinatura de 70
deputados dos mais diversos partidos... E também não anda. Não anda porque a
UDR das comunicações não quer. E ponto.
Em resumo, se for esperar a vontade política dos atuais detentores do poder o
povo brasileiro não terá uma legislação decente para rádio comunitária nos
próximos dois séculos. Hoje só lhe cabe duas opções: ou continua resistindo, e
sendo tratado como marginal, pirata, bandido, ladrão, por não se enquadrar na
legislação em vigor; ou, se enquadra e faz uma rádio comunitária no galinheiro
do latifúndio da comunicação. Esta discussão, que é política, como já foi
frisado, o Governo se recusa a fazer. O discurso oficial é pela
"universalização" das rádios comunitárias. O Governo quer botar RCs em todos os
municípios. Rádios, claro, enquadradas na leizinha que existe. O debate
fundamental - sobre mudanças na legislação, a democratização dos meios de
comunicação, política de distribuição de canais - não é feito. Pra não
incomodar os ruralistas do ar...
Lei e ordem
A repressão, alegam os agentes de Estado, é devido à lei. A lei manda reprimir,
argumentam. A verdade, porém, é que reprimem por opção política.
A Anatel começou a reprimir em 1997, logo ao ser criada por FHC. A Lei Geral de
Telecomunicações (9.472), LGT, em seu Art. 19, Inciso XV dá à Anatel, poderes
de: "realizar buscas e apreensão de bens no âmbito de sua competência".Tal fere
a Constituição no seu Art. 5º, Inciso LIV, onde se estabelece que: "Ninguém
será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal". O PT e
o PCdoB entraram com uma ação no Supremo Tribunal Federal, e ele reconheceu,
determinando que o referido artigo não fosse ser usado. Ciosa dos seus deveres
de bater no povo, o que fez a Anatel? Não obedeceu e continuou apreendendo. Não
cumpriu uma decisão do Supremo! Seus agentes, que são tão legalistas, não
cumpriram a lei.
Foi feita uma Reclamação ao STF contra a Anatel, que então parou de descumprir
a lei. Mas, mais uma vez ciosa de seu serviço, criou "uma lei", uma Resolução
interna dizendo que tinha poder de lacrar. Lacrar emissoras não faz parte da
LGT, do Código Brasileiro de Telecomunicações, mas a Anatel lacra.
Diz o juiz federal aposentado Paulo Fernando Silveira: "A apreensão ou lacração
com base em dispositivo penal - ainda que estivesse em vigor e fosse aplicável
às rádios comunitárias - foge da competência administrativa da Anatel, razão
pela qual age com abuso de poder".
A Anatel lacra e chama a Polícia para fazer o resto do serviço: algemar,
prender os perigosos marginais que ousam desobedecer à lei. Qual lei?
Não a lei das rádios comunitárias que ela não tem isso. Mas a LGT (para
telecomunicações e não para radiodifusão), que em seu artigo 183 determina
cadeia para quem operar serviço sem autorização. Ou Código Brasileiro de
Telecomunicações, modificado na ditadura militar, em 1967, quando se
acrescentou o artigo 70, mandando botar na cadeia os subversivos que operassem
emissora sem autorização, em vigor até hoje. Não importa a lei, o que importa é
reprimir, impedir que esse povo, o povo, tenha voz.
Neste momento centenas de pessoas no Brasil estão respondendo a processo na
Polícia Federal por "operação de emissora clandestina". Existem projetos no
Congresso nacional anistiando essas pessoas. Como não interessa ao Governo,
eles não andam.
Em junho de 2003, numa reunião das entidades de rádios comunitárias da Bahia
com o ministro Miro Teixeira, ele foi questionado sobre isso. Imediatamente
chamou um assessor e determinou: "faça, agora, uma minuta de Decreto ou Medida
Provisória para anistiar essa gente, que eu levarei pessoalmente até Lula para
ele assinar". Até hoje não se tem notícia dessa minuta. Era somente uma
bravata.
O medo está no ar
O Ministério das Comunicações não resolveu nem aquelas questões básicas do
cartório. Por exemplo, até hoje o atendimento via telefone é precário,
improvisado, feito por pessoas sem a devida competência, deslocadas para função
para quebrar o galho. Uma central de atendimento, ou centrais de atendimento
que poderiam funcionar nos estados, não foram instaladas aqui ou acolá.
Talvez o Estado, tão caridoso com as empresas de comunicação, pudesse ajudar as
RCs. Você sabe quanto as empresas estatais investiram nas rádios comunitárias
em 2003? Zero!
Pra encerrar.
Por medo ou vassalagem, o fato é que o Governo Lula declaradamente tomou uma
posição: ficar ao lado dos coronéis da comunicação. Infelizmente, ao tomar esse
partido, Lula enterra sua história. Pior, enterra a esperança dos que
acreditavam que finalmente poderiam falar. Eles continuam mudos. O medo venceu
a esperança. Quem faz rádio comunitária têm medo da repressão, têm medo do
futuro - porque não vislumbram futuro. Tudo parece como no passado. E o povo
continua sendo marginal no seu país.
Lula parece não ter percebido a dimensão do que faz. Estes que hoje ele adula
são os mesmos que satanizaram e continuam satanizando os movimentos populares,
gente como ele. São os mesmos que fizeram 500 anos de deseducação do povo
brasileiro. Os mesmos que construíram este país sem destino, sem-terra,
sem-água, sem-sonhos, sem-esperanças.
Mesmo quem não votou em Lula acredita que é preciso mudanças. Isto não
aconteceu porque as elites continuam dominando o país. Mudança é quando o povo
se apodera do seu destino.
Fazer com que o povo domine os meios de comunicação, construa seus meios, é a
largada para esta mudança. O povo continua faminto de comunicação, educação,
cultura. Vai ter um fome zero para comunicação? Quando? No segundo Governo
Lula? Lula acredita que os ruralistas da comunicação vão deixar ele se eleger
novamente? A gente ainda vai acreditar nele?
*Dioclécio Luz é jornalista, autor do livro "Trilha das rádios comunitárias", e
membro do Conselho de Acompanhamento da Mídia da CDH da Câmara dos Deputados.
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