[Coaching_2005CWB] Antropologia para decifrar a cultura das companhias

Antropologia para decifrar a cultura das companhias 


Andrea Giardino 
A antropologia, disciplina que tem por objeto o estudo do homem, tem saído da 
esfera acadêmica e invadido o universo das empresas, como Intel, Microsoft, HP, 
Dell e IBM. O que elas buscam é entender a dinâmica e as diferenças culturais 
presentes no ambiente corporativo para melhorar a gestão dos negócios. Muitas 
até contratam antropólogos para ajudar a compreender os hábitos de seus 
consumidores, gerando assim produtos que atendam a suas necessidades. A 
Microsoft, por exemplo, decidiu criar uma versão popular de seu sistema 
operacional, o Windows Starter Edition, após estudo realizado com seis mil 
famílias do mundo todo. 

      Sérgio Zacchi/Valor    
       
      Luciano D Ascenzi, do Grupo de Culturas Empresariais (GCE) da Unicamp, 
diz que a antropologia pode ajudar a entender o que está oculto nas 
organizações    
"Toda empresa possui uma cultura que está oculta e que na verdade a define e a 
diferencia de outras empresas e organizações", diz Luciano D Ascenzi, 
pesquisador do Grupo de Culturas Empresariais (GCE), ligado ao departamento de 
antropologia da Unicamp. Segundo ele, muitas empresas atravessam complicados 
processos de fusão, que sempre envolvem questões culturais. "E a antropologia 
pode contribuir para que tudo aconteça de forma menos traumática". Apesar das 
organizações lá fora terem se rendido à ciência da antropologia, no Brasil este 
é um fenômeno só agora está começando a acontecer. 

O GCE foi criado em 1994, justamente com o objetivo de disseminar as 
metodologias da antropologia como ferramentas de estratégia entre as empresas 
brasileiras e as multinacionais instaladas no país. Fruto de um trabalho do 
professor Guilhermo Raul Ruben, financiado pela Fapesp, que fazia um 
comparativo entre empresas públicas e privadas, o grupo reúne cerca de 20 
pesquisadores, espalhados em várias cidades - São Paulo, Campinas, Fortaleza, 
Caxias do Sul, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Brasília, Curitiba, Salvador e 
Natal. 

De lá para cá, uma série de estudos de mestrado, doutorado e pós-doutorado 
foram desenvolvidos retratando os cenários de algumas organizações, como Banco 
do Brasil, Odebrecht, Santander-Banespa e Banco América do Sul (adquirido pelo 
Sudameris em 1998). Na Odebrecht, a pesquisadora e antropóloga Alicia Gonçalves 
Ferreira analisou a tecnologia empresarial do grupo, fundado por imigrantes 
alemães em Santa Catarina e que atua em mais de 20 países. "A idéia do meu 
doutorado foi avaliar a cultura, as relações sociais, o modelo de gestão e 
apresentar um relatório que diminuísse os ruídos na comunicação", explica. De 
acordo com a antropóloga, mensurar esses aspectos não é uma tarefa simples. 
"Mas é algo que impacta do desempenho das pessoas e que pode melhorar a 
performance com um diagnóstico preciso". 

Daí vem a importância do antropólogo junto às empresas. Ao decifrar as 
dimensões culturais das estruturas organizacionais, esse profissional também 
pode ajudar a empresa a crescer, valorizando os aspectos de sucesso e 
identificando o que deve ser mudado, sem romper com valores fundamentais da 
companhia e das pessoas. "Essa é a base do trabalho da antropologia 
empresarial", diz Alicia. Explicitar elementos culturais que estão ocultos, por 
outro lado, requer um trabalho cuidadoso. "Há um complicador que se concentra 
na estrutura de poder das empresas. Quando você mexe nisso, o que é comum, isso 
abala aqueles que estão a mais tempo na companhia". 

Esse tipo de trabalho feito pelos antropólogos nas empresas, chamado de 
etnografia, é baseado em entrevistas e envolve todos os níveis hierárquicos. 
Hoje, Alicia fica no Ceará, onde atua como pesquisadora do CNPq e estuda a 
cultura das cooperativas do estado. Enquanto D Ascenzi fica em Campinas, 
concentrado em um estudo que avalia a gestão de centros de saúde. Existem hoje 
antropólogos exercendo o ofício como pesquisadores autônomos ou ligados a 
universidades. Além da esfera acadêmica, muitos estão se especializando na 
antropologia de empresas. "Queremos mostrar as vantagens que a ciência da 
antropologia é capaz de proporcionar às organizações no Brasil", afirma D 
Ascenzi. 

A contratação de antropólogos para analisar a cultura organizacional, segundo 
ele, é ainda tímida por aqui. Embora algumas empresas já venham considerando a 
possibilidade. "Com a globalização, as empresas passam por grandes mudanças e 
vivem processos de fusões e reestruturações", conta. "Boa parte não sabe como 
lidar com esse cenário de turbulências. Muitas vezes elas concentram suas ações 
no plano prático e esquecem das dimensões culturais, fator essencial". 

Ao ampliar o escopo de sua atuação, os antropólogos além de desenvolverem 
atividades como estudos etnográficos de culturas empresariais, fazem a mediação 
das relações interorganizacionais (no que se refere às questões 
sócio-culturais, como por exemplo, participação nos processos de negociação 
envolvendo fusões e aquisições de empresas), a mediação de processos de mudança 
organizacional e o estudo das lógicas sócio-culturais do consumo. 


Fonte: Valor Econômico (21/06/06

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