[Coaching_2005CWB] Antropologia para decifrar a cultura das companhias
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- Date: Wed, 21 Jun 2006 11:36:11 -0300
Antropologia para decifrar a cultura das companhias
Andrea Giardino
A antropologia, disciplina que tem por objeto o estudo do homem, tem saído da
esfera acadêmica e invadido o universo das empresas, como Intel, Microsoft, HP,
Dell e IBM. O que elas buscam é entender a dinâmica e as diferenças culturais
presentes no ambiente corporativo para melhorar a gestão dos negócios. Muitas
até contratam antropólogos para ajudar a compreender os hábitos de seus
consumidores, gerando assim produtos que atendam a suas necessidades. A
Microsoft, por exemplo, decidiu criar uma versão popular de seu sistema
operacional, o Windows Starter Edition, após estudo realizado com seis mil
famílias do mundo todo.
Sérgio Zacchi/Valor
Luciano D Ascenzi, do Grupo de Culturas Empresariais (GCE) da Unicamp,
diz que a antropologia pode ajudar a entender o que está oculto nas
organizações
"Toda empresa possui uma cultura que está oculta e que na verdade a define e a
diferencia de outras empresas e organizações", diz Luciano D Ascenzi,
pesquisador do Grupo de Culturas Empresariais (GCE), ligado ao departamento de
antropologia da Unicamp. Segundo ele, muitas empresas atravessam complicados
processos de fusão, que sempre envolvem questões culturais. "E a antropologia
pode contribuir para que tudo aconteça de forma menos traumática". Apesar das
organizações lá fora terem se rendido à ciência da antropologia, no Brasil este
é um fenômeno só agora está começando a acontecer.
O GCE foi criado em 1994, justamente com o objetivo de disseminar as
metodologias da antropologia como ferramentas de estratégia entre as empresas
brasileiras e as multinacionais instaladas no país. Fruto de um trabalho do
professor Guilhermo Raul Ruben, financiado pela Fapesp, que fazia um
comparativo entre empresas públicas e privadas, o grupo reúne cerca de 20
pesquisadores, espalhados em várias cidades - São Paulo, Campinas, Fortaleza,
Caxias do Sul, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Brasília, Curitiba, Salvador e
Natal.
De lá para cá, uma série de estudos de mestrado, doutorado e pós-doutorado
foram desenvolvidos retratando os cenários de algumas organizações, como Banco
do Brasil, Odebrecht, Santander-Banespa e Banco América do Sul (adquirido pelo
Sudameris em 1998). Na Odebrecht, a pesquisadora e antropóloga Alicia Gonçalves
Ferreira analisou a tecnologia empresarial do grupo, fundado por imigrantes
alemães em Santa Catarina e que atua em mais de 20 países. "A idéia do meu
doutorado foi avaliar a cultura, as relações sociais, o modelo de gestão e
apresentar um relatório que diminuísse os ruídos na comunicação", explica. De
acordo com a antropóloga, mensurar esses aspectos não é uma tarefa simples.
"Mas é algo que impacta do desempenho das pessoas e que pode melhorar a
performance com um diagnóstico preciso".
Daí vem a importância do antropólogo junto às empresas. Ao decifrar as
dimensões culturais das estruturas organizacionais, esse profissional também
pode ajudar a empresa a crescer, valorizando os aspectos de sucesso e
identificando o que deve ser mudado, sem romper com valores fundamentais da
companhia e das pessoas. "Essa é a base do trabalho da antropologia
empresarial", diz Alicia. Explicitar elementos culturais que estão ocultos, por
outro lado, requer um trabalho cuidadoso. "Há um complicador que se concentra
na estrutura de poder das empresas. Quando você mexe nisso, o que é comum, isso
abala aqueles que estão a mais tempo na companhia".
Esse tipo de trabalho feito pelos antropólogos nas empresas, chamado de
etnografia, é baseado em entrevistas e envolve todos os níveis hierárquicos.
Hoje, Alicia fica no Ceará, onde atua como pesquisadora do CNPq e estuda a
cultura das cooperativas do estado. Enquanto D Ascenzi fica em Campinas,
concentrado em um estudo que avalia a gestão de centros de saúde. Existem hoje
antropólogos exercendo o ofício como pesquisadores autônomos ou ligados a
universidades. Além da esfera acadêmica, muitos estão se especializando na
antropologia de empresas. "Queremos mostrar as vantagens que a ciência da
antropologia é capaz de proporcionar às organizações no Brasil", afirma D
Ascenzi.
A contratação de antropólogos para analisar a cultura organizacional, segundo
ele, é ainda tímida por aqui. Embora algumas empresas já venham considerando a
possibilidade. "Com a globalização, as empresas passam por grandes mudanças e
vivem processos de fusões e reestruturações", conta. "Boa parte não sabe como
lidar com esse cenário de turbulências. Muitas vezes elas concentram suas ações
no plano prático e esquecem das dimensões culturais, fator essencial".
Ao ampliar o escopo de sua atuação, os antropólogos além de desenvolverem
atividades como estudos etnográficos de culturas empresariais, fazem a mediação
das relações interorganizacionais (no que se refere às questões
sócio-culturais, como por exemplo, participação nos processos de negociação
envolvendo fusões e aquisições de empresas), a mediação de processos de mudança
organizacional e o estudo das lógicas sócio-culturais do consumo.
Fonte: Valor Econômico (21/06/06
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